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Mostrando postagens de 2012

O Mito

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Era noite. Ouvindo as palavras balbuciadas, já sem força. Admirou as estrelas uma ultima vez. Dizia que percorriam um longo caminho até chegar ali. Mal sabia das ciências e dos entendimentos que a vida ensinava. Analfabeto, sem perspectivas, assumia seu curso para juntar-se a elas. Era o que aprendera, seguindo e segundo o mito. Aproximou-se de sua então esposa, agarrando-a pelo braço, os dedos trêmulos, a voz rouca e pouca lucidez. Pedia força e chamava ao pai. Na porta de sua casa, em vigília, toda a vizinhança ajoelhada; velas acesas, mãos dadas. Realizavam uma espécie de ritual, ensinado e passado de pais para filhos. A luz amarelada, os cânticos e movimentos homogêneos. Abriu os olhos, não tinha dores. Notou que suas mãos não mais tremulavam e sua respiração estava firme. Aquele muco carregado pelos anos no pó e na lida com a terra. Assumiu então sua versão do fim. O Deus maior assumia seu papel de juiz. Na capela que ajudou a levantar. Casaram-se e batizaram seu...

Copas

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Deitou-se. Semicerrando os olhos, agitava-se com a brisa úmida que vinha do temporal avistado ao longe. Os barcos içavam as velas buscando manter-se no equilíbrio distante. Buscavam manter-se flutuando nas nuvens densas que mostrava em seu rosto a bandeira pirata. Ela dizia que não, abusava das concordâncias, mas negava o fato de que as estrelas surgiam no céu ao pôr do Sol. O astro Rei coroava mais um dia com sua consorte, a Lua, que nascia como um sorriso do Gato Cheshire.  Alice, não gostava do que surgia ao deitar-se no gramado ainda seco, sem orvalho. Criou-se o mundo e recriava-se o escuro, sem se preocupar, pois estava bem consigo mesma, o luar e os pingos que pintavam o céu em formas diversas. A menina que possuía mais de uma milha de altura, estava expulsa do tribunal.  No mesmo tempo em que os planetas se chocavam, causando uma explosão cósmica em cores avermelhadas e azuis. Os pássaros, que não tinham hábitos noturnos, voavam sem rumo...

Entrelinhas

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As notícias chegavam do oriente, não se viam fazia um tempo. Ela e o jornal, a vista do monte Fuji era cômodo na janela numa gravura, Katsushika Kokusai, observava o lado lisérgico. As multicores que se misturavam num tufão que passava pelo oeste da ilha. Em Fukushima os núcleos esquentavam enquanto as paridades e estacas sombreavam o mito. Na cidade asteca, ainda sobravam os ritos, as ruínas, pedras talhadas com esmero. Eram vivos os credos ao Deus propriamente dito. Os cultos de chuva e bom tempo, enquanto o eclipse seria mais uma vez reverenciado. Foste uma bela tarde de sol enquanto descansavam a beira mar. Na capital, Tokio, o constraste entre o rural e a cidade, traria uma viagem no tempo ao lembrar de Meiji que no auge da segunda grande guerra, levaria a bandeira do sol nascente a diante. As bombas de Hiroshima e Nagazaki criavam o protesto. Bandeiras, avisos, comunicados, poder excessivo e a marcha até Stalingrado, na mãe Rússia antigamente chamada de União das Rep...

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O sol quente lá fora assistia a céu aberto, fascinado, a tempestade que caia dentro do ser imutável, congelado, transgressor. Era o ultimo dia de suas vidas ou talvez não. Apenas lia o jornal com cara de poucos amigos, não gostava das notícias vindas do exterior lá de fora. As grades soldadas na janela tinha plena consciência que estava preso, incapaz de mover-se, viu seus planos pelo chão. Chovia. Raios, trovões, relâmpagos... Um clarão fez com que o corpo reagisse num espasmo. Atordoou-se quando leu que o programa origem estava na versão 2.0.1, algo havia mudado na matriz. Teve medo de abrir as janelas, mas venceu. As grades foram excluídas do pacote, ganhou o sonho da liberdade. Abriu o portão com a chave 1.0, viu-se no paraíso proibido enquanto lágrimas escorriam de seu rosto.  Havia mais pessoas ao seu redor, saindo de suas casas pela primeira vez, admirando a clara luz do dia com certo receio. Ficaram todos ali, olhando uns para os outros com cara de mistéri...

O Épico

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Cansado de ouvir a mesma coisa sempre, resolveu por si só mudar, escondido em uma trincheira aguardando a hora certa para subir ao monte Olimpo, um rádio de uma padaria em ruínas, bombardeada pela guerra, Piaf. Era como descrever a cena de horror ao ver sua tropa atingida por um franco atirador da artilharia inimiga. Ver sua única bala estilhaçando o vidro da torre da capela, atingindo o alvo, foi um alívio para os sobreviventes. Já era difícil saber se o inferno estava ali, onde o soldado alvejado por uma bala calibre 7.62 deitava seu corpo já sem vida. De que adiantaria correr, olhar para os lados percebendo que não havia para onde ir. Piaf e “La vie en Rose”, descompassado por tiros de fuzil. O rádio parecia trocar de musica ao sentir a terra tremer com os bombardeiros que rasgavam os céus vermelhos de outono. Era tarde, o Sol dava sua trégua entre o pó e a fumaça. Um cigarro, aceso no chão do botequim, cheiro de sangue embrulhava o estômago. O credo cercava a tropa, algun...

Dream Eater

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Sentado num banco de praça observando as pessoas passarem. Assemelhavam-se aos carros que apenas passavam também. Tomava seu café ainda quente percebia seus pés ainda frios. Massacrava sua mente e não sabia se era vivo ou inerte, poderia apenas ascender aos céus e perceber que era apenas um sonho ruim. Ali eu observava o jardim, crianças brincando, asas reluzentes. Sangue, o tom avermelhado do por do sol tornavam as palavras, certezas. Sabia que partiria dali para outra dimensão. Seres em desenvolvimento, sem cabelo, sem roupas, sem vida. Ainda restariam os fios que seguravam os mesmos cadáveres que mesmo assim, permaneceriam em pleno movimento retilíneo. Foram apenas noites ruins, apenas preces não atendidas. Como poderiam crer num Deus Surdo, cego e mudo. Como ceder a fúria de uma natureza já em decomposição. Seria impossível a religião manter-se com suas estruturas, o inferno estava ali e o céu, paraíso, ou como pretendem os que buscam a salvação. De joelhos, observei pessoas ...

No Fim - Pt. 1

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O céu em movimentos espiralados de nuvens negras. Haveriam sinais no chão e luzes no alto dos montes, até os bichos previram a catástrofe e se esconderam com suas crias em qualquer lugar mais distante e ou profundo. Supondo que não olharia mais para a vida de outra maneira e sabia que o corpo quando em cheque torna-se tão bicho quanto é e a racionalidade se vai.  La tour Eiffel est restée sur le terrain. Entoando junto ao segundo Sol que ascendia na mais alta velocidade fazendo com que todo o esforço de uma humanidade por gerações e gerações criando o próprio inferno a seus pés e não sabiam mais como se proteger, ao descobrirem que a estátua da liberdade estava afundando de cabeça para baixo em um vórtice aberto sem sequer obter ordens superiores. Ainda lembravam do onze de setembro com certa cautela pois não se sabia se vinham do oriente ou se vinham do espaço porém apenas poderiam dizer que surgiam no céu estrelas cadentes que se moviam em curvas e velocidades distintas...

I hope so

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Sentado, estático. Teclas e letras deturpavam o conhecimento e a maior parte de sua alegria. Ouvia gritos de dor, mas era algo mais profundo. Nos fios de cabelo, grudados por todo seu corpo fazia com que o sétimo céu baixasse ao nível dos pés. Musica no rádio perturbava com um ritmo alegre e não entendia o porquê.  Apenas vivia. Fechar os olhos era algo que não poderia mais, aliviava a tensão, sentia como se o corpo se modificasse. Ao redor de seu casulo conseguia olhar para os transeuntes como se fossem peças de um sistema, engrenagens prontas para a substituição. Quer queira quer não, sabia apenas que vivera dentro daquela bolha e sumira num momento inexplicável. As partículas retornavam com certa atração, como o mercúrio. Ainda estava ali, observando o mundo e poderia crer que também era apenas mais uma peça do sistema. Ele seria a engrenagem mor, a única capaz de pensar antes de consumir.  Mas consumiu, pela ultima vez, c aminhava com certez...

Diário de Bordeaux

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Querido diário, estamos mais uma vez, subindo na audiência e caindo pelas tabelas. O Escracho está mais um dia de folga e deu lugar a um poeta meio machado meio martelo, se bate corta ou espana, atarraxa, mas não prega. Falando em pregar, o pastor analisava o dízimo enquanto exorcizava do rádio de um taxi, “em nome de Jesus”, era só um garoto epilético. Nas notícias mais comentadas, sabemos que a boçalidade resolveu tomar Red Bull e criar asas. Maluco beleza, uma carta de vinhos com o Lambrusco a 25 mangos, frisante, rose. Uma charge, uma vinheta. Olhar para os lados e sobrar pouco do dia para passar com quem se gosta, com quem se divide uma vida. Infeliz vida talvez, mas se sobra pouco tempo, talvez é o tempo que deveria ser. Podendo ser o tempo que não existiria. O fato de não existir, também é algo que se extingue durante as horas que se vão. Já chegou a imaginar que nada do que vemos é real? É como se as coisas que existem ao nosso redor fossem limites. Feitos de átom...

Da série: Quedas

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A industrialização de todo um país facilitava a entrada de capital com a exploração do petróleo, indústrias siderúrgicas e estradas de ferro. Concentrados nos grandes centros urbanos (São Petersburgo, Odessa, Kiev e Moscou), formando uma classe operária de 3 milhões. Submetidos a jornadas de trabalho maiores que 12 horas, sem alimentação e condições de trabalho. Enquanto que no palácio, no manifesto de Outubro, o Czar prometeu reformas no país. Criaria um governo constitucional, dando fim ao absolutismo e as eleições gerais para o parlamento onde elaborariam uma constituição para a Rússia. Com o fim da guerra com o Japão, por ordem de Nicolau II, os as tropas especiais ou Cossacos, interviriam nas manifestações dos trabalhadores, prendendo líderes e desmantelando o Soviete de Petrogrado (São Petersburgo). Com o controle nas mãos novamente, o Czar não cumpre suas promessas, deixando apenas a Duma (parlamento) funcionando com limitações e sob os olhares do poderio militar. Chamada ...

Für Elise

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Sentado num banco de praça pela manhã deparou-se com dois seres distintos em faces e trejeitos, porém eram iguais na forma em que se encontravam. O primeiro, deitado de bruços, parecia uma ode ao sofrimento, olhar para aquela cena digna de uma manhã de segunda-feira, era o mesmo que pedir para não ter acordado. Ao lado, havia outro, ou não mais havia. A situação de rua marginalizava o ser vivente (ou vigente) em pleno século 21, em pensar que passou a noite ali, o sol já tocava seu rosto há algum tempo. Moscas ao redor, papelão ensanguentado, restos e dejetos. O amoníaco ainda arderia as narinas e a imagem ainda travava a garganta, um alarme tocando sabe Deus desde que horas, enquanto uma viatura somente passava por ali para fazer presença, ninguém desceu, ninguém ouviu. O mundo seguia em frente como de costume. Pessoas, almas, passando por maus bocados e infelizmente ninguém ali para resolver a manhã, ou pelo menos alguns problemas. O sol agora paira no céu, sem trégua e nem lam...

Papo de Elevador - nº 6

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Um dia de Sol na empresa em que o Sr. Meinfuhrer comandava sua tropa para os testes de aptidão (era sol, aquele mesmo que passava pelas frestas da porta que ligava o estacionamento ao campo de concentr... ao tronc... ao quartel gen...ao escritório).  Mas eis que surge a pergunta, teste de aptidão? Sim, todos diziam suas funções e deveriam provar que sabiam fazer aquilo. O Moreira, granfino, chefe de alguma coisa que nem ele sabia direito explicar, estava com as pernas bambas, hoje seria descoberto que mais mamava nas tetas do Dono daquela espelunca do que o contrário (não levem está constatação no sentido literal da coisa, ele mesmo nem pensou nisso, ainda bem). O Ascensorista, que chamavam de Washington (devido ao episódio do WC), sabia bem o que fazia ali, era subir e descer, descer e subir (peço que desta vez encarem o sentido literal da coisa, ou não, bem... continua). A Senhora Clementina, também tinha ideia do que fazia ali e não tinha dúvidas em provar que seus...

Nota(-se)

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Observando as pessoas, descobrimos que fazem parte de um padrão, que em sua maioria não sabe nem onde está e nem o que está fazendo. Apenas vivem. Limpam. Sujam. Evitam. Tentam. Frustram-se. Chegam ao orgasmo. E após isso, são apenas pessoas. Pavões, andando por aí para que os outros vejam suas belas (nem sempre, e nos dias de hoje, ainda mais difícil) plumas. Andando com seus parceiros de bando, tribo, turma, matilha ou (por que não?) enxame. Prontos para atacar, o (coletivo) mais próximo. Não dependem somente de seu (coletivo), não cultivam a si mesmos e muito por acaso acabam cultivando o que há nos outros grupos. Eis que surge a miscigenação, responsável por tantos equívocos e por tantas ondas diferentes, tantas vertentes e tantas outras (espécies). Dentre os seres (humanos) pode-se também existir aqueles que apenas assistem com certo nojo o desfile. Não desfilam, não existem, apenas observam. Olhando com todo o cuidado para não se aproximar demais (do bando). O solitário...

Inimaginável

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Enquanto criava-se no céu, aquele funil misterioso, apenas admirava a beleza dos astros ao seu redor. Sistema solar, sistemas financeiros, sistemas políticos e mundanos. A menina sentada na calçada observando as estrelas não tinha ideia da imensidão e nem ao menos de como aquela calçada foi parar ali. Era curiosa mas não perguntou aquilo para a mãe, que as vezes se irritava com perguntas e mais perguntas, naturais de qualquer criança que descobre o mundo através da janela do quarto, geralmente ajoelhada na cama com os cotovelos apoiados, por horas e mais horas talvez para contar quantos segundos tem o dia, ou então quanto tempo o sol demora para percorrer o horizonte. Estufou o peito e questionou a senhora que lavava os pratos, talheres e copos. Resmungava também, pois o marido não havia comprado a maquina de lavar de presente de natal, pois é, para aquela mulher, aquilo seria um presente. Não ter a necessidade de não lavar os pratos. Mas, bem, ao ser questionada de como aquela c...

Um Banquinho e um Violão

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Aurora boreal em pleno corcovado. Da janela viu as crianças deitadas no chão com as mãos na cabeça, as mães assistiam e tentavam deter a policia que apenas fazia seu papel na sociedade. Mais tarde, aquele menino maltratado pelo PM, o matava com 2 tiros, pelas costas, um pouco mais velho, aquele menino cresceu levado pelo ódio que tinha apenas dos soldados. Diziam: "Nossas meninas estão longe daqui, não temos com quem chorar e nem pra onde ir, e se lembra de quando era só brincadeira... Fingir ser soldado a tarde inteira?" Enquanto do lado do morro, a ilha que se formava durante o cerco, ou poderíamos chamar de embargo. Cada criança com seu próprio canivete. Enquanto isso, o senhor da guerra ainda não gosta de crianças e todos se afogam num copo d’água. Caiu em si quando olhou para os próprios pés, descalços, com frio, sujo e desgastado do asfalto que corroia toda a carne. Corrompia os maiores e findava os menores. Subiu uma fumaça mais densa, pipas, aviõe...

Post Mortem

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Arriscou um palpite. Palpitava o coração. Até que parou. Choque. Choque. Pulso. Firmou. Parou. Choque. Choque. Ele está vivo. Sequelas. Parou. Pensou. Afinal, qual seria o fim? A luz? O nada? Apenas ele sabia. Mas não contou a ninguém. Estava morto.

Oedipvs

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Olhava por dentro do gargalo da garrafa, observava o fundo meio ressabiado, por hora ele via um castelo, hora um fundo do mar, hora via apenas o fundo da garrafa.  Cético, o filósofo estava com os dias em falta. Faltava tempo para olhar pela janela, observar as estrelas em sua luneta. Restavam horas para que o sono chegasse. Deitado com a cabeça no travesseiro imaginava o mundo de ponta cabeça e quebrava qualquer tese que diriam seus maiorais, não se importava com ideias e nem ideais. Trancava-se em sua nave espacial e corria atrás dos que simplesmente “exatavam” o tempo como aquele que sempre corre e nunca tem parada.  Desta vez ele sabia que o tempo parou, tinha certeza disso,  sentiu-se como um pêndulo que partia da direita para a esquerda e simplesmente não voltou da esquerda para a direita. Contemplou mais uma vez aquele momento e nomeou-o de exímio. “Exímius” para dar um ar de latim. Deitado ali, naquele momento que o tempo estava parado, pensou qu...

Cabeçote

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(tosse) Começava a escrever talvez um quadro bem conhecido por muitos (tosse), talvez não soubesse ao certo quem era ou qual o significado daqueles olhares para seu rosto. Seu corpo atrofiava a cada esforço a mais (pigarro). Rodeado por alguns conhecidos e por alguns que não lembrava, procurava no outro lado do cérebro (tosse), o lado racional o que geralmente resolvia aqueles cálculos infalíveis matemáticos e estratégicos (pigarro). Não encontrava nem no mais profundo de sua memória uma tese que poderia servir ao coma. Estava simplesmente inerte. Foi na noite em que dormiu ali, sozinho, naquela cama que sobrava espaço, sobrava um lugar. Ele sabia quem faltava (pigarro) (tosse) (pausa), sabia muito bem quem faltava ali ao seu lado ao menos segurando sua mão, ou recostada em seu corpo (tosse). Lembrava-se de noites sentados no sofá comendo pipoca e assistindo aquelas comédias pastelão (ameaçou um sorriso, mas era impossível), gemeu, sentindo alguma coisa encostar-se a seu ...

Macarrão

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Evidente. Com muito custo o pão na mesa da família de baixa renda. Com muito suor, na terra onde nascem seus descendentes. Sobressalentes, complexos. Incompletos, entristecidos, mecanizados. O engenho ainda girando, o feudo mesmo que mascarado, sobrevive. O Sol cobra seus tributos em almas, pele, sangue e coração. Cria-se então o credo. Pessoas de bom coração que doam seus corpos ao bem comum, tudo aquilo a quem se faz justiça, mãos e braços. Nasce-se para se fazer número, cresce-se com dificuldade, com a mesma dificuldade que se cria e se chega ao fim, com a certeza de que o próximo fará o mesmo. Ah, e mãe, eu ainda não tenho a minha guitarra elétrica.

Noite

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Encontrou seu refúgio no primeiro buraco que encontrou. Não tinha ideia da profundidade, se seria mais fácil enfrentar o caçador ou aguardar o fim do abismo, enfim, pulou. Durante a queda, sentia uma corrente de ar em ambos os lados, formavam por entre seus dedos a pressão causada pela resistência do ar. Seu corpo flutuava, ao invés de cair, não sentia mais a gravidade. Fechar os olhos e enxergar seu trajeto até ali. Pensava em coisas, nada com muita clareza. Estava com muito medo, talvez confuso, em um momento de embriaguês foi o que manteve seu coração menos apertado a adrenalina deixava seu corpo trêmulo, a dose relaxava. Anunciou ao garçom que a próxima seria dupla e sem gelo. Prontamente atendido, com classe. Olhava para o fundo do copo, já vazio, ao fundo tocavam um Blues, meio folk meio antigo. Faltava a melodia, faltava o encanto. Surgia na boca do palco um vocalista com o rosto pintado com tons obscuros e algo que brilhava em seu olhar, a voz não saia e mais uma do...

Médium

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Não sabia de sonhava ou se aquele momento era real, no apartamento equipado com uma cama e uma mesinha de cabeceira. Sobrevivente, amarrado na cama escutava uns barulhos estranhos vindos do banheiro. Olhos vendados, corpo vendido. Suas vestes rasgadas, o barulho cessou. Passos em sua direção, a boca seca, estomago embrulhado, aquele ronco não era de fome. Ouviu vozes, falavam de dinheiro, de moralidade. Sentiu um cheiro de tabaco, ouvia uma conversa animada que se assemelhava àqueles talk shows de TV americana e naqueles moldes seus pés adormeciam devido à posição em que se encontrava, sentia como se estivesse pendurado de cabeça para baixo. Uma pressão súbita no nervo óptico, o corpo enfraqueceu e a imagem que antes era escura, não se formava mais. Desta vez era sonho, via um rosto, mas não podia tocá-lo, admirava aqueles olhos que não olhavam mais da mesma forma, o formato era diferente, eram cansados, eram desviados, já não dav...