Sutil
Um quarto. Mais ou menos a metade de um. Um leito. Os tiros, escutados a quinhentos metros de distância, seguidos dos pneus queimando o asfalto vinte minutos depois. Talvez tempo suficiente para chegar o socorro. As ambulâncias, donas das sirenes as quais ouviam naquele quarto, eram do hospital do subúrbio. Tão acostumados aos barulhos noturnos que nem se deram ao trabalho de correr contra o tempo para salvar uma vida. Tocava o telefone do posto policial do 9º distrito, procuravam alguém da científica, da homicídios. O quarto vazio, a meia luz dos postes entrava pela fresta das janelas fechadas pelos tapumes mal pregados. Era uma luz avermelhada, causava uma penumbra por entre os feixes, a arma, fora deixada ali ao lado do corpo. Quase nua, respirava pó, expirava pó, automático, agonizando, pela força do diafragma. Corpo surrado, meias arrancadas a força no meio das coxas, a calcinha nos joelhos, um corpete preto, couro, com detalhes em vermelho, corações, salto a...