quinta-feira, 12 de setembro de 2019

O Estado de Sítio de Albert Camus x A Expectativa do Espectador


Como exercício de reflexão, me ponho a experimentar o lado amargo e efêmero das relações contemporâneas de acordo com a visão social (marginal e padrão) em um momento em que a não possuímos mais ídolos a não ser os advindos das religiões por hora, também contemporâneas. Não vos falo sobre religiões “Neo”, mas acuso as idolatrias que ocorrem nos ditos templos nos quais ainda se utilizam de vias arcaicas para a manobras das massas.

Quando falamos sobre Estado de Sítio, de Camus, notoriamente é uma peça política onde se representam as forças e perdas da segunda grande guerra.

 “Uma epidemia qualquer aflige os habitantes de Cádiz, imprevisível e forte. A imprevisão decorre da ausência de um raciocínio político a longo prazo e tem por consequências tanto o despreparo diante do novo quanto o aumento do autoritarismo. O despreparo leva a encobrir o problema: esconde-se o irresolúvel. Elevar o grau do autoritarismo é a velha prática do ataque como melhor defesa. O povo deve esquecer a passagem do cometa e quem insistir em lembrar será punido. A vontade do governador é que nada aconteça em seu governo e que tudo continue bem, como sempre foi. Não se fuja do hábito, pois novos fatos e novas ideias trazem consigo a necessidade de novas explicações. Se as explicações oficiais forem errôneas ou falsas, podem ser corrigidas ou desmentidas, levando daí ao questionamento e provável enfraquecimento da autoridade, ao descrédito e à desobediência.

Revela fundamentos frágeis a autoridade que não admite ser questionada. Quando o governo recorre à agressão, a Força, uma virtude governamental, é confundida com seu vício oposto, a fraqueza. Um povo crédulo, entretanto, facilita muito a permanência deste status. Provavelmente a personificação da Peste sirva, num primeiro momento, para demonstrar o comportamento do Governo diante do cúmulo a que se pode chegar com este quadro de desordem.

Outra derivação do aumento do autoritarismo, segundo quer mostrar Camus, é o cultivo de leis e de formalidades. Muitas, obscuras e contraditórias leis e formalidades escudam o arbítrio, tornando difícil sua prova. Nada agrada mais um funcionário público que um procedimento com começo, meio e fim, esconda o que esconder. No caso de dúvida, recorra-se a quem de direito. O prejudicado muitas vezes prefere resignar-se.”

Hoje em dia não há mais luta, a revolução está calada pelas telas do celular, hoje em dia as redes sociais se tornam diários e a peste do século é a tal tecnologia que assume o papel de herói e vilão ao mesmo tempo. A heroína disfarçada de analgésico no frasco Bayer. Vemos uma sociedade frágil, derrotada, consumista e designada a guerra civil a qualquer momento que o sinal do pacote de dados for retirado. Lutamos pela liberdade de expressão, a mesma que se traveste de libertária enquanto se espalham as fake News em um ritmo alucinante, as industrias bélicas apenas aumentam sua produção e a sociedade curva-se a hipocrisia do comerciais de TV, anunciam a energia nuclear como avanço enquanto armam seus mísseis com ogivas de destruição em massa. A tecnologia nunca será pela evolução, mas, pela destruição.

Dentro de um contexto social, o ser humano é notoriamente cravado de diamantes que podemos chamar de esperança, um ser racional, que exibe a todos as benfeitorias que as mazelas do pensar. Desde a muito tempo se expressa das formas mais variadas, seja pelo teatro, pela dança, pelas pinturas ou por qualquer outro meio historicamente retratado e datado pelos anos em que a evolução era vista de uma forma mais lenta. A partir de um certo ponto, caminhar já não era novidade, escrever passou a ser uma obrigação, falar mais de uma língua uma forma de talvez se despontar em um mundo em que os diamantes simplesmente saíram dos anéis para entrar na indústria de corte e perfuração.

Quando pensamos em expectativas chegamos ao falho conceito de que a gente precisa entender que o que nós damos ao mundo não é sempre o que recebemos de volta. Existe a compreensão desta lei universal do retorno na qual as pessoas se enchem de esperança. Então tudo parte muito mais da nossa expectativa de como gostaríamos de ser tratados, ou seja, nós mesmos somos culpados pelo nosso próprio desgosto, somos reféns de nós mesmos. Entregamos a nossa sorte a pessoas que talvez não dão a mínima para isso, mas entendem que nós mesmos entregamos?

É um ato de pegar algo nosso e dar a alguém, se a pessoa vai segurar isso, se a pessoa vai cuidar disso, se a pessoa vai deixar cair, se a pessoa vai chutar, se a pessoa vai jogar fora, enfim, um deserto imenso de possibilidades que não podemos prever além do que imaginamos em nossas expectativas.

Querendo ou não, a guerra está em nós, a politica está em nós...

“Mais vale uma boa conciliação que uma vitória sobre escombros.”


por Faber Krystie McDonnadan