domingo, 15 de março de 2020

A lama


Em mais um dia como em um terreno frio, como se estivesse tocando a lama fria nos pés, no fundo de um rio nas montanhas geladas, aquele que te faz observar a vida toda num piscar de olhos e nada daquilo parecia fazer sentido a não ser a sobrevivência. A relação em que se observa ao relento, jogado no fundo de um rio como uma pedra que estará ali, estática por anos e anos e anos...

Parece tão cruel quanto uma corda que entrelaça e sufoca ou como uma faca que invade e desobstrui a vazão dos fluidos vitais. A sobriedade de um ser que se deslumbra com o mundo é tão incrédula quanto o ser que se arrasta pelo mesmo e se afoga nos horizontes de um céu escuro em plena luz do dia. O monstro não o persegue, ele mesmo o é e todos os dias de uma vida viverá a sombra deste que vive dentro de si, ao mesmo clarão de sobriedade que o mundo as vezes o faz pensar que talvez tenha uma esperança, me trazendo a ideia da equilibrista que no primeiro deslize se faz uma força desumana para se manter em pé e raras as vezes acabará vencendo a corda bamba estendida de um mastro a outro.

Compreender a vida é compreender a desilusão, é compreender que não existirá nunca o dia seguinte por mais que os mais cheios de compaixão convivam com as esperanças de trazer os descrentes para a superfície. É uma via de duas mãos quando se observa um peixe no fundo da água e se observa a lontra na superfície, ela desce para a caça, enquanto se o peixe subir por muito tempo ele estará morto.  Com a faca nos meus pulsos, com a minha gravata no meu pescoço, com meu o monstro nas costas e com a cabeça vazia, minha querida, cante comigo esta canção, por uma última vez, com os anjos e demônios que dançam em uma elipse ao redor da Via-Láctea. 

"I lost something in the hill country. They took a piece of my heart away from me. Among other things he's a cold heartbreaker. The broken cowboy stole my music maker."