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Consumo, de fato

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Caminhar nas ruas enquanto os carros passam pelos vãos, comprimem o ar causando o efeito e aquele som característico. Motores queimam os pistões que numa prece se deleitam em meio ao fogo e fumaça. Respiram, transpiram e se derretem. O dia estava quase no fim e o sol já se punha quando aconteceu o fatídico impasse, o choque entre dois nêutrons mudou completamente o destino daquela rua, o instável passou para o mundo real que estabilizado estava. Numa prece, o sacerdócio profanava mais uma vez o nome do pai celestial enquanto aqueles dois nêutrons se consumiam. Tudo foi pelos ares, tudo acabou no segundo em que o destino mais uma vez se fez presente. Caía a tarde e o Sol daria um ultimo suspiro no meio dos prédios em ruínas. As usinas nucleares ao fundo, pouco antes dos prédios, assinalavam com seus sarcófagos o final, sem créditos, sem música, sem motores.  De ontem em diante, o que havia acontecido naquele instante que piscou os olhos. Uma epifania que levou o ser ao nirv...

Um dia você aprende, atribuído erroneamente a Shakespeare

"Um dia você aprende...  Depois de algum tempo você aprende a diferença, a sutil diferença entre dar a mão e acorrentar uma alma. E você aprende que amar não significa apoiar-se. E que companhia nem sempre significa segurança. Começa a aprender que beijos não são contratos e que presentes não são promessas. Começa a aceitar suas derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante, com a graça de um adulto e não com a tristeza de uma criança. Aprende a construir todas as suas estradas no hoje, porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos, e o futuro tem o costume de cair em meio ao vão. Depois de um tempo você aprende que o sol queima se ficar exposto por muito tempo. E aprende que, não importa o quanto você se importe, algumas pessoas simplesmente não se importam… E aceita que não importa quão boa seja uma pessoa, ela vai feri-lo de vez em quando e você precisa perdoá-la por isso.  Aprende que falar pode aliviar dores emocionais. Descobre que se leva anos ...

Crê e será salvo

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No inicio aquilo era meio insosso.  O céu perseverava por cima de um brilho estranho azul. Era dia de outono, sabe, quando as flores não estão em seu devido lugar e as folhas secas banham o chão com um aspecto amarelado, meio, bem, outono. (Não, sem cenário de filme, era outono ainda, o céu borrava e a poeira embaixo do tapete era ainda algo a se mostrar tão a favor quanto o resto do dia, carregado, explícito e, como dizer, cinzento.) Não havia folhas e algumas flores estavam com os dias contados, mas ainda estavam ali recebendo suas abelhas. É as abelhas que não sairiam do centro financeiro da colmeia, ora, a colmeia seria apenas um lugar seguro no inverno enquanto a abelha rainha comia as cabeças de suas servas. As responsáveis pelo mel, ainda vivas pelo momento. No gramado. (Não, sem gramado. No chão, os dois sentados logo à frente enquanto a imagem desfocava da abelha na flor e focava-os.) Eles estavam admirando o sol, daquele dia de outono, o céu azul permitia que alg...

Nociva

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Contam uma história por aí de certa garotinha que perambulava pelos becos mais escuros das ruas mais escuras da cidade mais escura (complexo? Não né?). Ela tinha um brilho nos olhos que pareciam saltar de suas pálpebras. Enquanto ela caminhava, todos os acostumados à escuridão tinham uma luz para se guiar, sim, todos eles eram dotados de uma cegueira. Passavam o tempo todo tateando pela cidade e por todo o caminho, a qualquer momento aconteciam acidentes, tanto no trânsito quanto nas calçadas. O risco de infecções e complicações era muito alto, já que não havia limpeza das vias públicas e dia sim dia não alguém não voltava para casa. O tempo consumia e o odor de morte geralmente era confundido com o próprio cheiro pútrido da rua, da cidade e de todo o entorno. Os vizinhos dali não tinham coragem de adentrar ao caos. Diziam apenas que havia vermes do tamanho de caminhões (aquilo é claro que era mentira). Nos hospitais, por incrível que pareça, era o único lugar que tinha luz, um médico...

Indolor

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A trilha sonora do verão foi a voz de um piano quase cego e surdo, oco, sem pernas. Não perca seu tempo se nada é o bastante para se manter vivo. Ninguém quer saber se está assustado ou se está livre. Tudo o que você precisa saber está em suas mãos. A morte ainda é o grande mistério, e num ultimo sopro as coisas se fundem, o irreal se torna a intensa realidade e realização, até então, o mito se funde a vida e todos nós percebemos que somos feitos de pedra. O som do piano ainda reluta estridente e cansado. Ele explica, ele chora, ele sorri e parte. Diz que a dor é real e que tem coisas que o tempo não apaga. Ele apenas enxugou suas lágrimas quando elas caíram, ela esteve lá quando tudo parecia desabar e ainda assim nada foi relevado. Revela-se a dor contida, um assassinato ao corpo que não chegará ao entendimento da mente.  Ele não sabia como afastar. Fechou os olhos e sentiu como se sua alma fosse arrancada, estava apenas de coração partido.  ...

Modernidade (com pesar)

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Pelo mundo afora, modernidade, celulares, carros com todos os tipos de controle. No trajeto entre as escutas telefônicas, em densidade, o consumo desenfreado arriscava saltos cada vez mais altos por entre os mundos digital e analógico. Buscavam ainda manter o controle inclusive dos seres vivos que permeavam as florestas em processo de devastação. Militares invadindo a Crimea, sem identificação, sem uniformes definidos, sem saber suas etnias. Os espectadores dando sua humilde opinião sobre a China, em casa. Protestos combatidos a ferro, fogo e balas de borracha. As torres de vigia apontavam acima dos arranha-céus, radares, toscos homens em busca da informação. Trafegavam os dados e os civis na mesma frequência. Na mesma velocidade que os carros passavam, rasgando as avenidas. As ondas elétricas permaneciam “always on”, falavam em bits, kilobits, megawatts, giga-hertz. Quaisquer unidades de medida ainda esperavam pelo mundo sem os quilotons. Plantas, animais, animalidades hu...

Espelho

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Perto do pôr-do-sol, sentados ali, pai e filha. Ele nunca tinha visto tal beleza e comentava como era rápido o fenômeno. Devagar por entre as linhas que formavam as nuvens, pareciam de algodão entre cores derivadas do laranja e azul, não se misturavam, contrastavam. A garotinha apontava para outros lados, parecia contemplar não apenas a coroa que se findava no céu junto ao horizonte, ela murmurava e resmungava coisas que pareciam ser adeptas aos novos seres. É como uma inauguração de qualquer coisa, entramos, marcamos nosso espaço e admiramos todas as diferentes coisas, que com o passar do tempo se tornam triviais. A plantinha que crescia na sacada, o risco por falta de tinta que acontecera devido ao tempo, clima e afins, ela contemplava tudo, ao mesmo tempo em que o pai apenas admirava o que lhe era novo. Como já citado, nunca havia visto tal coisa em sua vida e lagrimas teimavam cair de seus olhos durante a cena final. Aparecendo a mamãe, dizendo coisas sobre a modernida...