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Anteontem...

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Ouviu um barulho do lado de fora, olhou para frente, levantou da cama e percebeu que não havia ninguém ao seu lado. Abriu a janela a fim de encontrá-la. O vento soprava numa velocidade que ressecava o globo ocular, não podia mantê-los abertos. Aquela sensação irremediável foi desaparecendo assim que o vento deixou de soprar. A luz do sol ainda não apontava no horizonte, ainda era noite quando avistou algo se aproximando. Rasgando os céus por entre as nuvens amarronzadas da noite que sinalizavam uma possível tempestade, um brilho desigual que piscava em cores distintas. Aterrizou no pouco espaço que havia ao lado da janela do quarto das crianças. Seu censo de proteção gritava para que o mesmo fosse até lá, tentou correr, tropeçando no pé da cama. Alguém apareceu na janela (do lado de fora), impedindo que o mesmo fosse até lá. Viu sua mulher, entregando seus dois filhos ao homem que desceu daquela nave. As crianças choravam, mas seria necessário. Um estrondo e um clarão...

Galáxia - Parte 2 - Final

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Viu-se na caverna, na autoridade daquele mundo em que se trancafiou para se salvar das catástrofes. O astronauta olhava a Terra brilhar ainda com as chamas, em algumas partes que o mar cobria havia fumaça. Lá de longe o pequeno planeta azul com uma vista privilegiada da beirada da cratera lunar em que ele sentou-se. A vista lembraria algo como o símbolo yin-yang feito de fogo e fumaça. Em seu diário, descrevia sua décima noite. Fechava os olhos, lembrava-se do mundo como era. Não tinha saudades e nem se comovia com suas perdas, afinal sabia que as grandes perdas do mundo ocorreram antes do fim do mesmo. Estava ali, sozinho. Em seu descanso, o astronauta admirava o fim da humanidade. Ouvia os gritos desesperados das pessoas que ainda queimavam. Cenário de horror para alguns que para ele seria simplesmente o limite em que o cosmos suportou. Aos noventa dias de espera, reuniu suas coisas e regressou ao planeta, o chão estava limpo pela brisa, os mares recuaram após longas re...

Paralelo

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Enquanto voltava ao banheiro para escovar os dentes, percebia que o espelho era o dono de grandes verdades. Observava que seu rosto já marcado pelo tempo, com linhas estranhas e profundas, seu cabelo caíra com o tempo e a pele não se esticava mais. O creme dental que utilizava para disfarçar seus dentes amarelos de cafeína e nicotina. Olhou mais para frente, chegou mais perto pensando que seria puxado para dentro daquele universo paralelo que estava bem ali. Aquele olhar de embriaguês, órbitas afundadas na cavidade óptica, as olheiras provavelmente surgiriam após longos dias em que passou em claro, insólito. Enquanto a escova passava por aquele conjunto de dentes, engasgava com a mesma em sua língua, era necessário, fazia parte da higiene. Enquanto ainda secava os pés por completo, guardava a escova e o creme dental em seus devidos lugares. Fechando o armário contemplou na outra noite com sua face estampada no espelho úmido e embaçado. Sorriu com seu olhar morto e mos...

O Cigarro e o Câncer

A vida como era feita de apenas um sopro. Inspira, expira. A fumaça entrava no corpo perfurado e saia pelas valas das costas que sinalizavam o trágico fim. A bandeira hasteada, com os dizeres: Não fume, parece que não servia nem mesmo ao lado dos tanques de petróleo ou nas placas em locais fechados (públicos), tinha um placebo para que a dor daquela mancha negra fosse mais branda. Enquanto escrevo, sinto meu peito arder, sinto o ar faltando. O maço de um lado, os exames do outro e eu no meio fio, não sei se abuso do vício ou se respeito minha saúde, não sei se abuso da saúde e respeito o vicio. Está muito claro para mim, que isso pode me matar. Alias, já me matou. Parti corações, vivi sem remorsos, consciência leve e tranquila. O câncer pôde ser evitado, mas o vício não. Cansei de lutar, cansei de esperar que tudo se encaixe, apenas estou escrevendo talvez minhas memórias. Olho para fora, a luz do sol passando por entre os feixes da veneziana, amarelada de nicotina. O ve...

Galáxia - Parte 1

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O mundo acabava diante daqueles olhos, passando pelas pessoas que corriam na direção contraria, ele admirava o meteoro rasgando os céus entrando em combustão ao se chocar com a atmosfera.  Percebia o desespero das crianças, agora sem um futuro, mas ao mesmo tempo não se sabia do presente. Observava o sol, que não estava tão claro, o brilho não ofuscava os olhos, pois estava coberto pela fumaça da padaria em chamas. Saqueadores passavam pelos estabelecimentos levando o que podiam carregar e mal sabiam que nada poderia suprir as necessidades fisiológicas, filosóficas, filantrópicas. As águas do mar atingiam alturas indefinidas, gigantes apenas. Não era ressaca, servia-se mais uma dose ao senso popular de que a vida é frágil, dolorosa... O absinto de cor fluorescente florescia por entre as montanhas, construíram um abrigo temendo o pior, como se algo pudesse piorar. Uma série de furacões formava-se no horizonte, seria a ligação entre céu e terra (para não dizer, céu e in...

Ponto de vista

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Despiu-se Atingiu o ápice A depressão atingiu o ser No meio daquele longínquo neurônio O choque desfez Aquela que nada supunha Assistindo ao vivo e a cores O fim daquela novela com um triste desfecho O suicida antes de pôr fim a própria vida Defendeu-se daquela que não permitiria o feito Refém da própria sorte Ali, viu seu escape Caiu nas graças do desconhecido Não via meios de prosseguir Uma bala num coração Outra no próprio cérebro Crime passional.

Radioativo

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Erguiam-se as mãos para um ultimo suspiro, desejando a morte rápida e indolor. Incolor como o pior veneno, todos procuravam manterem-se os mesmos e assim tornavam-se inevitavelmente intocáveis. Havia uma fenda naquele muro. Do outro lado era claro, mas ninguém se atrevia a atravessar a linha de fogo.   Como explicar aquela fuga de massas, o êxodo era impossível, o ar irrespirável. Calma, ferro e fogo. Explodiam os tambores de combustível. O cenário fumê dos incêndios nos campos de concentração. Campos onde a neve clara se confundia com os rostos daqueles que não abriam os olhos. Jamais os utilizaram, não os possuíam. Em sobra, na sombra, pela escuridão. Assemelhavam-se aos animais, sem pelos, sem olhos, com dentes afiados, amarelados. O vermelho que enchia de pavor. Cheiro de sangue, ferroso e doce como tal. Experimentava pela primeira vez a luz, a mesma que abria a mente daqueles que permaneciam trancados dentro da radioatividade do reator abandonado. Eram seres...