terça-feira, 30 de abril de 2019

Tous les jours - 04


Ao passar por aquela ponte, parou no ponto mais alto e, em um lapso pôde sentir o vento em seu rosto e todo o entorno das pessoas que se compadeciam com mais um corpo que se chocava ao solo de forma brusca. Tudo se reconstruía em sua mente e o céu visto era apenas mais um céu coberto de incertezas e tristezas, aqui jaz mais uma mente insana que não suportava o mundo. Para alguns era covarde, para outros era realista, para estes era um sinal de que aos poucos a sociedade matava seus ídolos e idolatrava outros os quais não tinham nada a doar. De certa forma o mundo era aquele mesmo e tudo o que ele poderia fazer era se juntar ao limbo ou arriscar um salto ao infinito desconhecido.

Abrir os olhos com um dos pés apoiado na grade pronto para subir mais um degrau fritou os miolos do sujeito que só estava ali a passeio. As pessoas em volta só observavam sem dizer uma palavra. O clima agradável da noite densa apenas ressaltava a luz dos carros que cruzavam o mesmo caminho. Dali em diante, seguiu seus passos até um bar, onde pediu uma dose de conhaque sem gelo e uns petiscos como tira-gosto. Encontrou alguns amigos, conversou sobre todas as coisas possíveis e ali se sentiu cada vez mais sozinho conforme os amigos iam embora.

Sentado no banco da praça fumando um cigarro de um maço que encontrou ali naquele mesmo banco. Arriscava pensar novamente naquele momento em que observou seu corpo cair, se quebrar como uma onda no casco das embarcações que se embreavam mar adentro. Se sentia num cais, como um navio ancorado pronto para navegar, buscando o mar aberto, pedindo por sua libertação, mas com as pernas imóveis. Seus olhos se moviam e seu corpo banhado em seu próprio sangue insistia em se manter vivo.

Abrindo os olhos novamente enquanto soltava a fumaça pelas narinas, descruzando as pernas e observando ali perto que havia alguém desconhecido. Sem se preocupar com nada, finalizou jogando a bituca logo a sua frente e tomando seus passos pela cidade, caminhava sem rumo, sem ideias ou um ponto final. No termômetro digital visto ao longe marcava 10 graus, estava frio, o conhaque já havia sido consumido e o jeito era acender outro cigarro para se manter aquecido, as luzes dos carros iam ficando cada vez mais escassas devido ao horário, as ruas se iluminavam pelos postes que não exatamente se mantinham acesos, uns piscavam, outros apagavam por longos minutos, o vento batia nas vitrines das lojas e faziam um barulho característico ao soprar nas bocas de lobo.

A cada passo se via mais perto do destino, a cada passo se via mais longe daqueles pensamentos. Entrou em um bar que ainda estava aberto, pediu uma dose do mesmo conhaque sem gelo, sentou-se a uma mesa vaga dentre tantas as outras que estavam também vagas. A musica ambiente mesclava com o barulho das mesas agitadas pela conversa dos frequentadores, era um lounge americano que fazia jus ao bar, tinha cara de ser aqueles PUBs gringos cheios de frescura.

Acordava com alguém cutucando suas costas. Era o garçom, anunciando que a casa estava fechando e que ele deveria acertar a conta e sair. Levantou assustado, procurando sua carteira, retirando uma nota, e colocando em cima da mesa, colocou um cigarro na boca e no primeiro passo para fora do bar notou que estava quase amanhecendo, o Sol não batia em lugar nenhum mas já notava o céu com as cores se modificando, seguiu caminhando até o prédio onde morava no 8º andar, entrou em casa, fez carinho em seu cachorro, enquanto tirava os sapatos, abriu a janela da sala e sentiu a brisa fria da manhã que arrebentava sobre seu rosto como o mesmo mar do cais que arrebentava contra o casco das embarcações.

A vida voltava ao normal, as ruas se enchiam, as mesmas buzinas de todos os dias preenchiam o Lounge e tornava a vista mais turva do que de costume, os aviões cruzando os céus, o barulho dos trens de superfície e todo o entorno da vida na metrópole. Sentando no sofá enquanto acendia mais um cigarro arriscou o salto, em sua mente e mais uma vez acordou com o rosto ensanguentado. Daquele dia em diante, previu seu fim várias e várias vezes e em uma explicação complicada ele dizia que as ramificações se findavam e ele mesmo era dono do próprio destino.


terça-feira, 2 de abril de 2019

Um planalto vazio


Com os joelhos no chão, braços para cima em sinal de suplica, olhos fechados, o sol batia em seu corpo e denunciava ao mesmo tempo o horário das 14 horas em um relógio solar fotografado naquela cena. A composição abstrato-sertaneja indicava as casinhas ao fundo, feitas de barro, com portas sem trinco, rústicas, que mais pareciam gotas daquele orvalho sujo das plantas que vivem perto dos canaviais após uma noite no inferno que queimaria, calmaria, sobreviveria, humildemente, solenemente, capital...

Suplicava pela vida assim como os animais daquele sistema, com todo o cuidado do mundo o fogo queimava a palha, esquentava o lombo, definhava a terra, entornava a guerra, matava o sertão. O planalto sobrevivia assim enquanto a chuva não vinha, e ali naquelas casinhas em que os matagais insistiam em nascer para ser mais tarde arrancados pelo caprino que anseia pelo alimento fuçando na intuição que remexe por toda a psique do ser que ali persevera e perpetua um quadro revisitado por poucos.

A chuva não vinha, tornando seca aquela pintura rupestre sertanejo-abstrata. Os cadáveres emergiam na terra que bufava feito fornalha, por descaso, por descanso, por falta de ensejo ou talvez por falta de contingente humano. De certa forma uns diziam que preferiam amar feito os bichos, mais honestamente e menos sazonal. Tantas as vezes que tudo se tornava insular o próprio muro também emergia de forma a que ninguém visse tudo aquilo que se passava ali. Os pés queimavam, não sabendo se a terra pisava no boi ou se o boi pisava a terra caminhando, magro, quase esquálido, um cálice a poucos metros de si com água fresca. Ao observar a cena o mesmo se aproximava daquele que seria seu suspiro de vida ante a situação do semiárido.

Ao longe um riso de crianças, barrigas enormes, felizes, tomadas pela fome e pela sede. Mas sorriam, pois, encontravam graça naquele lugar inóspito ou talvez porque não entendiam muito bem que se aproximavam cada vez mais do encontro divino com o além vida. Ah, coração, dai a festa em nós, assim como as cores nos tratam como reles mortais. Diga depressa quais seriam suas paixões senão a compreensão de um quadro tão fiel ao olhar dos que ali passam fome. O mundo é pequeno e o tempo é uma invenção, um sopro e todas as plantas do jardim se foram com o sentimento de derrota pela oração por um dia de chuva, pela esperança de um dia sem sofrimento, pela idealização de um prato de comida, pela perseverança da própria sobrevivência.

Mas, de todos os lados havia um único medo, o medo de ir embora. Talvez um mundo sem dúvidas seria um mundo sem respostas.


terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Mulheres Selvagens


"Como em um instante em que as estrelas se assimilavam aos teus olhos brilhantes e como era bom o toque das suas mãos em minha cabeça quando você acariciava brutalmente meus cabelos. Você olhava para mim com um semblante tão puro que dava gosto de tentar compreender todo o universo que girava em torno de sua mente, você era sagaz, esperta, sabe? Teu sorriso ornava com os seus caninos, eu diria, democraticamente saltados, parecia uma eterna junção entre o egocentrismo de Nietzsche e a crueldade de Machiavelli, era assim que eu gostaria de descrever a sua beleza entre todas aquelas estrelas que eu via em teus olhos, Olga."

Este seria um fragmento de uma carta deixada por Fernando horas antes de partir. Fernando era um rapaz adorável, bom filho, aquele que sempre tirava notas altas na escola e se formou com louvores pelos professores em Harvard. Ele era um cara que adorava física e tinha como plano de vida um dia ser como Albert Einstein. Era um garoto brilhante com inúmeros prêmios na escola, universidade, enfim, ele tinha tudo na vida. Foi no inverno de 78 que as coisas começavam a se tornar um pouco turvas.

De certa forma, Olga provava para si mesma a necessidade de sobreviver no inferno, estava começando a universidade em uma época um tanto quanto complicada para as mulheres, ainda mais as ditas mulheres livres. Olga tinha um semblante jovial, em suas vestes ela carregava a revolução e em seu peito, como um amuleto, levava o anel que tinha ganho de seu avô antes do mesmo partir dessa para a melhor. O avô era a única pessoa que ela tinha na vida, a criou e a criou sem medo do mundo, todos diziam “Aroldo, você criou um homem”.

Ela não entendia, era pequena demais para entender o por quê de alguém falar assim, mas se perguntava o por quê ela não deveria fazer o que ela fazia. Olga sabia atirar, subia em árvores, cozinhava, caçava, montava barracas e enfim, adorava trabalhos manuais pesados, Olga tinha o sonho de comprar aqueles tratores de demolição, aqueles que derrubavam prédios com duas ou três pancadas. Olga tinha um tom meio excêntrico, gostava de ler coisas estranhas como “As enciclopédias sobre os sapos venenosos de Madagascar” ou então “O manifesto comunista”, e claro, adorava obras filosóficas de Schopenhauer, Tomas More e afins.

As coisas pareciam meio complexas naquele verão, fazia calor enquanto Olga comprava um sorvete a alguns passos de Fernando, que parado na banca procurava aqueles quadrinhos do Pateta, ele adorava o mundo Walt Disney. Pato Donald era seu preferido, mas naquele momento ele queria ler algo do Pateta, as ruas estavam completamente iluminadas pelo sol que batia em cada pedaço sem cobertura, quando ele deu um passo para trás e encostou em Olga que desviando sua rota deu de cara com o poste. A casquinha foi direto em sua camiseta e Fernando emudeceu. Os dois se olharam, Olga estava com muita raiva, mas também ficou muda, eles apenas se olhavam enquanto o dono da banca arrumava os jornais se prestar atenção em nada. As buzinas dos carros foram sumindo, o vento batia quase que imperceptivelmente, o sol não incomodava mais... momento quebrado por Fernando que se desculpou pelo mau jeito enquanto Olga apenas se esquivava dizendo estar tudo bem. Foram até a sorveteria novamente e ali se conheceram, conversaram, trocaram telefones e se despediram.

Nos dias que seguiram, eles se viam todos os dias, mantinham o que chamamos de uma relação saudável. Até que os contrapontos surgiram e um mar de rosas acabou por mostrar seus espinhos, Olga era a revolução, Fernando queria uma mulher para ficar em casa arrumando as coisas e cuidando dos filhos. Olga nunca pensou em filhos e quiçá arrumar a casa, Olga queria o mundo, queria cumprir seu desejo de trabalhar em uma empreiteira, trabalhar e concorrer com aqueles homens mal-educados que construíam prédios, coçavam o saco na frente de todo mundo e cuspiam no chão. Olga era bem-educada, tinha etiqueta, fazia “coisas de homem”, mas tinha um real nojo da sociedade de seu tempo.

Foi quando em uma festa, desses bailes dançantes, Olga colocou um vestido tão lindo, mas tão lindo que se encaixava perfeitamente em seu corpo, todos os presentes ficaram boquiabertos, Olga estava deslumbrante e Fernando no balcão, pedindo uma bebida, a mesma que caiu quando avistou-a entrando pelo salão. Ele ajeitando seus óculos e fechando a boca, foi se aproximando, eles se olharam mais uma vez e se beijaram. Um beijo que poderia ter durado semanas, meses... Com cuidado eles foram se afastando, mas não tanto a ponto de não sentirem cada um a respiração do outro. Era uma reconciliação, de fato uma verdade entre eles havia, eles não viveriam mais separados. Se casaram 1 mês depois e viveram por anos e anos juntos. Sabe a casa que ela não aceitava arrumar sozinha e os filhos que ela não queria ter, então, cada qual arrumou um emprego e dividam as tarefas, os filhos, tiveram apenas 1, de parto normal, nascia Sarah aos 28/04/87 às 6:30 da manhã.

Eles criaram juntos a pequena Sarah que era uma mistura dos dois, brava e revolucionária como a mãe e desajeitada como o pai. Ninguém fazia realmente conta desse detalhe paterno já que foi em uma trombada que toda essa história se desenrolou. A pequena cresceu e foi estudar em Harvard, justamente onde seu pai havia se formado e também acabou se formando em física aos 25 anos de idade.

A carta? Bem, a carta estava como uma surpresa em cima da mesa da sala de estar, Fernando descrevia que precisava partir, e de certa forma partiu, foi chamado para trabalhar em um projeto científico da NASA e não poderia, por enquanto, levar Olga e Sarah. Fernando era um cara extremamente apaixonado e escrevia várias cartas por semana para Olga, que geralmente retribuía com um sorvete, na mesma sorveteria que eles se conheceram, Olga tinha um estilo diferente, mas sabia como deixar o cara feliz.



segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Devaneios


É sabido que quanto mais conhecemos da história, mais deprimidos ficamos após confrontar os ignorantes repetindo o mesmo ciclo. A história serve não apenas para nos deleitarmos sob as pinturas, esculturas e restos mortais, ela serve como uma questão evolutiva para que tenhamos um norte ao criar, olhar e agir, assim como entender as variadas formas de chegar a algum lugar e também de como não proceder em outros casos.

O que vivemos hoje é nada mais do que uma mescla entre a necessidade de evolução e a incapacidade de compreender os ecos do passado. Entramos é claro em várias outras vertentes como o descaso de governos perante as nações que realmente necessitam de ajuda. A ideia parece absurda, mas ao mesmo tempo não podemos deixar de compreender as perspectivas entre os continentes e ainda chegando ao consenso de que as nações se tornam insulares quando se é falado algo sobre doação.

Empresas multinacionais pedindo a ajuda da população para levar água potável para África e Sudeste asiático enquanto outras produzem o suficiente para adquirir estes países. O problema não está no quanto isso custa, mas na vontade de ajudar as pessoas mais necessitadas levando o custo disso em consideração, como se uma vida tivesse mais valor que a outra.

Não é hora de encontrar culpados, mas de compreender que para que todo esse processo evolutivo, foi necessário que os povos entrassem em conflitos, foi necessário que se escravizassem os índios, negros e todos os que não tinham como se defender do “homem branco”. Muito sangue não-europeu escorreu desde a expansão marítima, muita coisa aconteceu e a história que ouvimos, sabemos que é a história dita pelo agressor, pelo europeu que se lançou ao mar, porém, ainda assim temos o dever de amenizar tudo isso da melhor forma possível, entendam bem, amenizar, já que os povos conquistados que ainda não foram extintos ainda vivem com os traumas do passado. É hora de deixar a visão do colonizador de lado, parar de olhar para os outros com diferença. É hora de compreender que o mundo é um só e ninguém que vive nele deve passar fome.

Massacres na Ásia menor e ilhas do sudeste asiático, exploração e mortes em África, população indígena extinta na América do Sul, Central e do Norte. Muitas as coisas que poderíamos aprender e evoluir de formas totalmente diferentes, quem sabe até espirituais compreendendo o crescimento em tribos e sabemos que a eletricidade seria inevitável um dia.

Ter esperança que a humanidade se torne mais humana, eu sei, é como encontrar agulha em um palheiro, é uma ideia difícil de se administrar. Dizer que a mudança começa de dentro pra fora também é uma falácia, já que enquanto as emissoras de TV fazem programas de arrecadação uma vez ao ano e (talvez) repassem o montante as casas assistenciais, compreendemos que este seria uma raspa, uma fagulha, um cisco, um grão... da enorme ponta do iceberg. Você pode ajudar? Sim, mas, você precisa entender que as palavras são belas e audíveis como música quando entramos em um altruísmo que as grandes corporações não têm, nunca terão e jamais tiveram.

Ganha-se dinheiro com os miseráveis, ganha-se nos testes de remédios, ganha-se na propaganda para arrecadação, ganha-se no olhar bondoso da população que se compadece com as imagens, ganha-se com tudo o que é mostrado, criando comoção mundial, na tela de uma TV, na tela de um Smartphone, nos outdoors eletrônicos nos grandes centros comerciais. A história não se repete desta vez, a involução sim. Alguns são reféns, outros conhecem um pouco mais, porém estamos todos no mesmo sistema, e alguns são tão dependentes dele que lutarão até a morte para mantê-lo enquanto nós tentamos abrir os olhos para um mundo sem desigualdade, fome, morte e dor.

No fim de tudo.

Um pavão belo, brilhante, sedutor e mortal.


quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Tous les jours - 03


Certo dia Antunes e Léo conversavam como quem não quer nada, aqueles papos de bar em que se programam viagens, falam sobre sagas épicas passadas na vida, futebol, mulheres e etc. Bem naquele momento que o Antunes falava sobre uma transa que teve com sua esposa quando ainda nem namoravam. Antunes lembrava bem daquele dia como o dia em que eles “fizeram amor” ao luar chapados de cogumelo, aquela devia ser uma lembrança e tanto, concluía Léo com aquele ar de deslumbre.

Já o Léo tadinho, não tinha muito jeito com as mulheres, ninguém sabia explicar, ele travava, mas gostava muito de flertar, conversar, era um cara legal que encontraria algum dia alguém pra ele. Isso era o que Antunes sempre dizia, não que o Léo quisesse namorar, se casar, ter filhos... ele mesmo, nunca foi enfático neste assunto, era mais fácil encontrar Léo debruçado no balcão do boteco do que em uma baladinha “playba”.

Juca estava ali também, mas estava quieto, e ambos notaram. Ao mesmo tempo ele estava olhando para o horizonte, dando um gole em sua cerveja e um trago forte no cigarro, era como se ele estivesse em um transe ou buscando alguma coisa num emaranhado de pensamentos. Antunes que estava mais familiarizado na mesa, o cutucou, queria explicações sobre aquela epifania que ele entrara, Juca desconversou, mas Antunes sabia bem que algo ali estava bem complicado de sair, como se estivesse entalado na goela, nem a cerveja gelada e nem o cigarro davam conta de descer aquilo.

Papo vai, papo vem, mesas sendo guardadas, garçons indo embora, o bar fechando, os 3 levantaram e foram para o balcão tomar a saideira, o Léo tomou o caminho do banheiro para mijar enquanto ambos pediam 3 doses de whisky, para fechar a conta. Encostados no balcão, Antunes admirava e ainda provava o cheiro do whisky e o assemelhava com a madeira do balcão, o carvalho, degustava aquele trago no scotch e outro no Chester, o cinzeiro de companhia no lugar do Léo que não voltava, Juca deu a primeira letra e Antunes completou quase que compreendendo o que ocorrera naquela hora, na mesa, em que Juca estava quase estático.

- Sabe Antunes, eu não queria muito falar isso perto do Léo, ele fica sempre constrangido quando surgem esses papos na mesa e tal, eu sei que você não liga, mas o cara fica boladão.

- Você acha que ele é viado? Não que seja da minha conta, o cara é meu irmão, ele que faz o que quiser da vida dele.

- Não, ele só é timidão mesmo, vai achar uma mina pra ele.

- Saquei, mas então, qual o peso meu caro, o que acontece?

- Ah, você ali falando sobre fazer amor, eu ainda estou com uma leve ressaca de ontem.

- Ontem não foi quando você saiu com a aquela moça, amiga da irmã do Léo?

- Sim, foi.

- E tá de ressaca? Cara, uma gata daquelas!

- É. – Juca foi ficando murcho –

- Qual foi porra! Conta logo! O Léo não volta mais mesmo, vou pegar o Whisky dele – derramando um pouco em cada copo –

- Cara, aquilo foi impressionante. Nós fomos pra minha casa, lá eu servi uma dose de whisky para cada, mas a gente nem conversou muito, foi bem direto ao quarto cada um tirando a roupa um do outro e se pegando pelo corredor. Nós transamos e depois ficamos horas deitados, nus na minha cama sem nenhuma pretensão, a gente se olhava, sorria, se beijava e voltava a se abraçar, essas coisas fofinhas que as pessoas fazem quando estão ali curtindo o momento.

- Mas o que tem de errado nisso, eu pensei que tinha acontecido algo bem complicado, sei lá, ela enfiou o dedo no seu cu? – Antunes concluía rindo junto com o barman –

- Não porra, a cena se desenrolou a gente deu mais uns beijos e eu fui mijar. O banheiro meio que dá de cara com o meu quarto e mijei de porta aberta mesmo, sem nenhum pudor. Dei descarga e virei pro quarto, quando vejo aquela mulher sentada na pontinha da cama, nua, pernas cruzadas eu cheguei perto me ajoelhei, abri as pernas dela e a chupei como nunca chupei outra mulher, ela acendendo um cigarro com o copo de whisky na mão, deu um trago de olhos fechados, soltou a fumaça enquanto gozava, abrindo os olhos, me olhou, deu um bico no whisky e continuou me olhando com uma cara de satisfeita, feliz, sabe? Ela levantou, me beijou, colocou o cigarro na minha boca, entregou o copo quase vazio e disse bem baixinho, que bunda linda você tem. Entrando no banheiro, fechou a porta e tudo o que eu pude fazer foi abrir a janela do quarto e observar aquele céu da manhã enquanto dava o ultimo gole no copo e apagava o cigarro no cinzeiro.

Ambos se despediram procurando o Léo que não estava mais no banheiro e em nenhum lugar daquele estabelecimento, segundo o Juca que acabou indo procura-lo. Acabaram indo embora, o barman guardava os copos, limpava os cinzeiros e o Léo, bem, o Léo estava nos braços da garçonete, nos fundos.



Simplório da Silva


Aos 48 do segundo tempo, nascia um homem tão calmo quanto o espelho d’água dos palácios dos contos de fadas. Simplório, nascia de parto normal em um parto que todos estavam bem calmos, a mãe quase não fez força ou sofreu, o pai estava ali ao lado, bebia um gole da cachaça de engenho que ele mesmo produzia em seu alambique quase que pessoal.

Era um pequeno bebezinho, tinha a face humilde, nascera sorrindo e assim que nasceu os pais olharam para ele e disseram juntos, humildade, mas, quando notaram que se tratava de um menino, tornou-se Simplório, Simplório da Silva.

Durante toda sua infância Simplório dava a entender que talvez tivesse algum problema cognitivo ou de dicção, era sempre feito de bobo pelas crianças ditas mais espertinhas. Eles riam de seu nome “esquisito”, praticavam o tal bullying comendo sua comida, enfim, as famosas “brincadeiras” que as crianças se sujeitam a fazer com os amiguinhos. Simplório era de fato muito calmo, a ponto de não esboçar reação a não ser de dor em casos que se machucava, mas em relação as brincadeiras, ele sempre ria junto com todos, até mesmo no dia que um talzinho o deixou de calças arriadas no meio do pátio da escola. Ele demorou para subir suas vestes novamente, já que não parava de rir com a molecada.
Simplório cresceu, tornando-se um homem esguio e com a mente sempre aberta para novas experiências, era difícil ele dizer não e não precisava nem de pressão externa para que Simplório aceitasse as condições expostas. Com Simplório não havia negociação, era sempre sim ou sim, ele sorria e aceitava tudo de bom grado. Foi quando em uma rodinha de amigos, aceitou um tapa no baseado, o que o fez ficar ainda mais calmo, ainda mais humilde, Simplório, agora, digo, naquele momento, chapado, conseguia apenas rir e mal falava.

Em um belo dia, Simplório que aprendeu técnicas milenares circenses foi convocado para trabalhar como palhaço para animar as crianças. Foram 8 horas de festa, Simplório corria pra lá e pra cá, virou alvo das bexigas cheias d’água o que acarretou em toda a maquiagem borrada, roupa molhada e muitas risadas vindas de Simplório e da garotada. Na hora de ir embora, os donos da festa foram maldosos, sim, eu sei disso. Disseram ao rapaz que gastaram muito com a festa, que as coisas estouraram o orçamento e que infelizmente eles não poderiam pagá-lo, Simplório parou por 2 segundos, sorriu, abraçou as pessoas e foi embora, acenando para a molecada que restara no final.

Casos como este aconteceram várias outras vezes e Simplório nunca reclamava, sempre sorria e abraçava as pessoas. Ninguém sabia compreender o porquê daquele homem nunca reclamar de nada. Não eram motivos religiosos, não tinha explicação, ele era assim.
É dito que viram Simplório bravo uma única vez, e por menos de 2 segundos, quando em uma voltinha com uma nobre dama, ela estava levemente alterada após algumas cervejas, pegou Simplório pelo braço colocou ele dentro do carro e disse que o levaria para sua casa, Simplório nunca reclamava de nada, não seria naquele momento que reclamaria, né? Ela queria deleitar-se naquele corpo esguio, Simplório não era de se jogar fora e diziam por ali que ele sabia fazer massagem nos pés como ninguém, um prato cheio para qualquer mulher que gosta de ser bem tratada, enfim, naquela noite, no caminho da casa da nobre dama, ela parou o carro no meio da rua, deixou Simplório ali no banco do passageiro, sentou a mesa com outros rapazes e mandou descer as cartas. Ela foi jogar uma partida de truco! Simplório saiu esbravejando do carro até que encontrou um amigo que o abraçou, pronto, passou a braveza e o carro continuou no meio da rua, aberto, motor ligado, som tocando na rádio AM (ô saudade).

Simplório é assim até hoje, um grande amigo que as vezes os amigos tem raiva de tão Simplório da Silva que ele é, todos ficam bravos com as injustiças que acontecem com Simplório e até mesmo por vezes alguns tentam interferir no curso das coisas. Simplório sempre sorri dizendo o famoso “Deixa pra lá”, e no fim, quando todos se abraçam, todos riem ao mesmo tempo.


domingo, 6 de janeiro de 2019

Les Gens Disparaissent Tout le Temps


Como numa reprodução, o pintor abusava de tons escuros e tons amarronzados, tanto que naquele momento que o tripé bambeou e a tela foi ao chão, a tinta rabiscou toda para o lado da pancada.

Aquela mistura de tons amarronzados e escuros por incrível que pareça se misturaram em alguns pontos e por trás daqueles rostos antes pintados com certas feições mais alegres estavam monstruosos e na tentativa de modificar aquilo tudo, acabou encontrando saídas não muito convencionais fazendo com que todas as faces desta vez se tornassem sarcásticas. Em um riso macabro que viria mais tarde de seus pulmões, boca e feições, havia um espectro ao fundo da tela como se fosse saltar dali para fora que o fez pensar duas vezes antes de dar o toque final ou então dar um trago no whisky.

Querendo ou não, abandonar aquilo tudo não era mais possível, ele estava preso entre as ferragens e anseios, entre os nobres e famintos, ele estava ali, preso no meio dos dentes do monstro que pintou. Não tinha mais esperança de viver e arriscou um salto para fora do quadro já emoldurado. 

Em uma dessas vernissages na cidade velha em Lisboa 700 anos depois, ele ainda preso, tanto no quadro quanto entre os dentes do monstro. Ao olhar para fora, uma garotinha o observava e parecia que ela conseguia compreender o que havia por detrás de todo aquele sarcasmo e alegria reprimida. [Câmera gira, dos olhos da garotinha para os olhos do pintor dentro da tela, som ambiente, buzinas, carros e sirenes] 

A garotinha desta vez, trocando de lugar com o pintor, que desde então queria apenas finalizar o quadro. Finalizou e assinou, contente com sua obra. O tempo voltaria 700 anos atrás enquanto o vento entrava pela porta de madeira de um casebre, o whisky era finalizado sob a lareira, o velho pintor ainda em pé, arriscava compreender o tipo de vestimenta que estaria ali naquele meio abstrato após a queda da tela e do tripé, havia entre os tons pastéis um lapso de conduta vindo de uma sociedade doente.




quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Expressionismo x Belchior



Quando se fazia necessário, por vezes, buscar em seu leito de morte aquele relógio que era incapaz de marcar as horas e neste momento que olhava os ponteiros retornando às posições iniciais de 12:30:15. Estáticos, todos ao redor faziam parte de um lapso temporal como se o botão “Stop” tivesse sido pressionado. Nada mais ali funcionava, o tempo parou, dizia ele em sua mente, seus movimentos não eram capazes mais. Como num sonho ou paralisia noturna, o choque tomava conta de todo o sistema enquanto olhava para o relógio situado nos 12:30:15. Os aviões de guerra, rasgavam o céu com seu sistema inovador que permitia que o Tenente-Brigadeiro Josh Briggs pudesse atirar em seus alvos sem acertar a própria hélice.

Naquela cadeira em que situava no 8º andar do prédio da inteligência Soviética, denominada pelos Britânicos de Crash. Todos os Nazistas que sobreviviam no front, possivelmente iam parar ali. Pavel Liannoff, o responsável pela vingança de cada baixa do exército aliado, já iniciava o interrogatório na língua russa, causando um certo estranhamento no soldado alemão, porém, quando o soldado tinha certeza de que estava falando com um analfabeto russo e o insultava, Pavel começava um pequeno funeral, iniciando suas preces com Goethe, citava Prometeus e sempre finalizava com Nietzsche, a simbólica frase “Deus está Morto”, era um louco.

“Bedecke deinen Himmel, Zeus, (Encobre o teu céu, ó Zeus,)
Mit Wolkendunst, (Com vapores de nuvens,)
Und übe, dem Knaben gleich, (E, qual menino que decepa)
Der Disteln köpft, (A flor dos cardos,)
An Eichen dich und Bergeshöhn; (Dispor com carvalhos e picos de montanha;)
Musst mir meine Erde (Ainda tu deves partir)
Doch lassen stehn (Minha terra ainda está de pé;)
Und meine Hütte, die du nicht gebaut, (Minha cabana também, que não foi criada por ti;)
Und meinen Herd, (Deixa-me a minha lareira)
Um dessen Glut (Cujo brilho gentil)
Du mich beneidest. (Por ti é invejado.)”

Em um momento que Liannoff já obteve todas as informações necessárias ele sussurrava ao sargento de mais baixa patente ao seu lado, em alemão, “bereiten Sie den elektrischen Stuhl vor” (Prepare a cadeira elétrica). Enquanto desamarrava o soldado, fazia um certo corpo mole para que ele se soltasse e pudesse fugir, e todos fugiam, pulando pela janela buscando a sorte de sobreviver a uma queda de 25 metros.
Enquanto observava a cena, Pavel continuava a citar Prometeus.

Ich kenne nichts Ärmeres (Eu não conheço nada mais pobre)
Unter der Sonn' als euch, Götter! (Sob o sol, do que vós deuses!)
Ihr nähret kümmerlich (Você nutre dolorosamente,)
Von Opfersteuern (Com sacrifícios)
Und Gebetshauch (E orações votivas,)
Eure Majestät, (Sua Majestade;)
Und darbtet, wären (Você iria morrer de fome)
Nicht Kinder und Bettler (Se crianças e mendigos)
Hoffnungsvolle Toren. (Não confiassem nos tolos.)

Mais um soldado alemão, com menos de 20 anos, suicida, morto, nas ruas de São Petersburgo, a chamada então de “A cidade de Lênin”.





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quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Tous les Jours - 02


"Consegui meu equilíbrio cortejando a insanidade."

Talvez em um passado muito (ou pouco) distante, já se tenha ouvido uma expressão tão comum quanto escovar os dentes antes de sair para o trabalho, claro que para tal você precisa de algumas coisas listadas a seguir:

1a parte:
- Ouvidos;
- Orelhas;
- Não ser surdo;
- Se deficiente auditivo, ter um aparelho que ajude a ouvir;

2a parte:
- Escova dental;
- Creme dental (ou sabonete, mas não faça isso);
- Dentes (ou dentadura, mas aí rola também um Corega Tabs*)
- Uma porta (ou algo que se sirva para sair de algum lugar) e;
- Um trabalho (seja lá qual for).

Mas, voltando a real ideia sobre a expressão, enfim, eis que já ouvimos falar “fulano é louco!”, “será que você não poderia ser mais normal?”, “sicrano é maluco! Um doido!” e etc.

Chega-se à conclusão de que de certa forma as pessoas loucas são mais atraentes em todas as vias. Ninguém é seduzido por alguém passando com cara de merda na rua, geralmente aqueles que sorriem para tudo e para todos, dizem bom dia e se sentem felizes com tudo, pessoas loucas são felizes e consequentemente mais sedutoras.

Geralmente pessoas que se doam por inteiro em relações, sejam casuais, amigáveis ou qualquer relação que possa ser lembrada, pessoas loucas são inteiras, são pessoas que não tem medo de arriscar, não são inseguras e se der merda, continuam felizes pois é isso mesmo que o mundo deu então ok, "bora beber".

Pessoas loucas sabem lidar com qualquer situação, sem medo de ser quem são, sem medo dos julgamentos ou de qualquer coisa que venha de outra pessoa. O mundo delas é de dentro pra fora, elas não fazem nada para “aparecer”, elas são. Se talvez você já se pegou dizendo: “- Fulano quer aparecer!” Cuidado, você pode ser uma pessoa normal e ranzinza... sem perceber, você quer aparecer, tentar ir além da pessoa louca que aparece por natureza, ela surge como sol por trás das nuvens. O caso é que a curva é inversamente proporcional ou seja, quanto mais você tenta aparecer mais você se esconde. Compreende que a pessoa maluca não tenta? Ela é.

O grande problema das pessoas normais é esse, o brilho dos loucos as incomoda e aí criam-se padrões, criam-se regras, criam-se estatutos e condutas morais para que os loucos sejam marginalizados. Enquanto alguns sentam e reclamam, outros fazem acontecer e buscam a loucura de cada dia. Lembrem-se, as revoluções aconteceram perante ideias malucas e ideais inconcebíveis. Ninguém nunca foi feliz suficiente no escuro do quarto pensando em suas responsabilidades antes de dormir, mas aposto que aquele foda-se bem dado na hora certa foi do caralho. Aquela adrenalina ao realizar o seu sonho de pular de paraquedas ou então a realização de socar a cara de alguém que te incomodou por tanto tempo.

Nós, seres humanos, necessitamos da loucura diária e se você não necessita dela, sinto muito, você é apenas um peso para papel na repartição pública. Pegue um carimbo e seja feliz. Enfim, finalizando este texto citando o saudoso Nelson Rodrigues em sua peça teatral “álbum de família”, fala na qual Senhorinha se dirigindo a Jonas se refere a Nonô:
- O amor por uma pessoa louca, é algo puro.

*olha o Jabá!



segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Tous les jours - 01


Certa noite, Chico ao passar por um bar que estava fechando observou que foram esquecidas três cadeiras para o lado de fora, ele estava um pouco embriagado, mas pensou bem, resolveu levar as cadeiras embora e na rapidez empilhou-as e levou até sua casa, uns quarteirões a frente. Na manhã seguinte, o bar abria enquanto Chico entrava pela porta com um ar de preocupação, queria falar com o dono do estabelecimento.

- Olá, bom dia. – Disse chico.

- Olá, como vai? – Disse o dono do botequim

- Vou bem, obrigado. Gostaria de saber se não gostaria de comprar umas cadeiras, dessas de bar, tenho algumas em casa e, sabe como é, depois da mudança acabei precisando me desfazer delas.
- Hum, elas são brancas? Com o símbolo da Antártica?

- Sim são. Engraçado, são iguais as que você utiliza em seu estabelecimento. – Chico tinha um ar de conclusão, mas estava bem aflito.

- Eu entendo senhor, mas, sabe como é? As coisas não vão bem aqui no bar, bem, serei direto – Neste momento, Chico arregalou os olhos, achou que seria descoberto. – Não posso comprar nada por enquanto, a não ser que seja muito barato.

- É como eu disse, estou fazendo a preço de desapego, 2 contos por cada, vai? – Chico concluía.

- Hum, 2 conto cada uma? Bem, como eu disse a situação está complicada e você pegou o bar abrindo, posso te oferecer uma dose da melhor pinga que eu tenho? – Todos ali, menos Chico, sabiam que aquela era a boa e velha 21 garrafa plástica não retornável.

- Claro, pode ser! Adoro uma pinguinha de engenho! Vou buscar as cadeiras.

Ao retornar, Chico tomou sua dose e foi embora feliz pelo bom negócio.

Passando por ali no final de semana seguinte, notou que haviam desta vez dez cadeiras do lado de fora e sem titubear, empilhou-as rapidamente e levou embora. 

Na manhã seguinte o papo desenrolou da mesma forma.

- Bom dia senhor, lembra de mim? – Chico se fazia entender.

- Bom dia, como vai? Olha, suas cadeiras foram muito úteis, ontem vieram três novos clientes e se não fosse você, eles teriam ficado em pé. Acredita?! – Comerciante

- Que coisa impressionante, fico feliz em poder ajudar e acho que posso talvez te ofertar mais algumas cadeiras, achei na mudança, mas desta vez são dez. O senhor se interessa? – Chico estava feliz por “ter ajudado”.

- Me interesso sim, mas podemos realizar a transação da mesma forma?

- Claro, mas desta vez então aumente a dose e de acordo com meus cálculos... – Chico se colocou a pensar, como intelectual.

- Te coloco duas doses! Pela nossa longa amizade! Muito prazer, me chamo Miguel.

- Claro Miguelito! Vou buscar sua... as cadeiras.

Chico retornava com as cadeiras, bebeu as doses e foi embora.

Uma semana após o ocorrido, o agora denominado Francisco, passava pelo mesmo lugar quando na rua em frente ao botequim após uma festa, haviam cem cadeiras. Ele empilhou todas elas e de dez em dez levou tudo para sua casa.

Na manhã seguinte, Chico entrava pela porta recém-aberta já mandando a palavra ao Miguelito.

- E ai meu chapa, posso te ser sincero?

- Manda aí meu consagrado, o dia tá mais ou menos, mas pode dizer.

- Eu venho aqui já tenho um tempo com esse papo de vender as cadeiras, mas eu preciso te contar um segredo.

- Pô cara, conta ai, o que acontece.

- É que eu não achei as cadeiras na mudança. – Miguel arregalou os olhos – Eu sou um vendedor de cadeiras, mas como achei você muito gente fina e vi que o seu bar está meio vazio, eu poderia te fornecer algumas novas. – Miguel respirou fundo e voltou ao normal.

- Claro cara, quantas você acha que cabem aqui? Umas cem?

- Nossa, é exatamente o que eu estava pensando.

- Mesma coisa? Te pago em doses?

- Sim, fique tranquilo, do meu chefe eu cuido. Vou buscar agora mesmo todas elas.

Chico trazia de dez em dez, pensando nas doses que recebera “de graça”, mal sabia ele que Miguel estava mal por ter se desentendido com o garçom que mandou embora por não precisar mais pagar alguém para guardar as cadeiras antes de fechar o bar.



quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Le temps rugit comme un lion

Todos os dias buscava encontrar-se em uma esquina qualquer, no meio de um bar, daqueles que tocam os famosos blues. Um furacão poderia ameaçar mais uma vez aquele dia com semblante cinza, poeirento, cru. Não havia mais uma pessoa sequer na rua, todos estavam escondidos com medo e ela ficou ali enquanto os ventos pareciam aumentar a intensidade e carregar consigo tudo o que poderia perante sua força.
As pessoas dentro de suas casas, acessando o porão enquanto aquela moça de estatura média, cabelos cor de arco-íris sentava-se no meio da rua, entre os carros. Parecia admirar todo aquele espetáculo de coisas voando, casas sem telhados. As caixas de correio mesmo chumbadas no chão, ainda pareciam criar vida diante daquele momento, saltando entre a folga dos parafusos, algumas se soltavam e levavam consigo memórias, notícias, propagandas e afins.

A inercia trazia um pouco mais de encanto ao compreender que a cidade se destruía aos poucos e nem sempre tudo era culpa dos ventos que zuniam em meio aos carros virados. A cena era real, as árvores; as únicas a suportar tudo aquilo e com certa dificuldade ainda se esforçavam bastante para manter as raízes no chão, mas o problema não eram as raízes ou então talvez os ventos fortes, mas driblar tanto a vontade de voar em meio as rajadas que se afunilavam entre as nuvens cinzas.
A ideia principal sempre foi a mesma. Naquele momento compreendeu-se que a luta era inútil, tudo sufocaria de tal forma que no final das contas o que foi vivido até ali não significaria nada. 

Os fins jamais justificariam os meios.
Todas aquelas questões sem respostas, sentia medo dentro de si e sabia que o silencio que a assombrava todas as noites terminaria ali, sabia que aquela noite seria a última e os velhos fantasmas que a prendiam naquele lugar, naquele dia, iriam embora. Ao fechar os olhos para os corações vazios não havia mais tristeza, alegria ou amor.

A chuva cada vez mais intensa transformando o dia que se tornava azul em nuvens negras e pesadas. Raios, trovões e relâmpagos davam o clima tétrico dentro de todo o entorno catastrófico enquanto o caminhão dos bombeiros cruzava as ruas buscando sobreviventes, quando ao cruzar a rua sentiu o vento bater em sua pele, um arrepio, um frio, dos pés a cabeça a fez entender que tivera passado por entre o caminhão. 
Ouvia seu nome ser chamado a poucos metros dali mas não se preocupava, seu destino estava cumprido e apesar do sofrimento dos mais próximos, o seu sofrimento havia terminado. A partir daquele momento, faria parte dos ventos, ventanias, chuvas e catástrofes. Assim como faria parte do lindo sol que fazia no dia seguinte, era primavera em Nova Orleans.



sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Missão KGB - Kiev - Parte 1


Quando estava pronto para retornar a sua casa sentiu uma vertigem que o fez deitar novamente naquele quarto de hotel, denominado “O Uivo”, tudo o que era feito ali ficava ali, e não seria diferente com o Rostkov, codinome de nosso personagem que não terá a identidade revelada. Ele fazia parte de um grande esquema de infiltração da polícia secreta em Kiev.

A cúpula de altas patentes do Kremlin continuava ali no subsolo aguardando o sinal para deixarem o local. As forças da Zvezda, responsável pelo tráfico de narcóticos da região que se estendia da grande Kiev a Donetsk, pressionavam o cerco feito naquele bairro, mas nunca desconfiaram que “o Uivo” seria quase um QG das forças armadas da antiga KGB, a hoje FSB.

É claro que eles nunca desconfiariam. O dono sempre foi muito confidente com todos e inclusive parecia que as vezes jogava para os dois lados, como se ali fosse uma espécie de área diplomática. Todos poderiam entrar e sair como quisessem, porém, era proibido a divulgação de identidades ou até mesmo falar o idioma local, ali se falava o Inglês.

A Zvezda sabia da movimentação dos oficiais naquela região, mas um disparo poderia colocar tudo a perder. Era uma espécie de guerra fria, onde ambos os lados tinham noção do que poderia acontecer caso alguém desse o primeiro passo. Deste modo, ninguém ganhava nada, mas também não perdia. Os caminhões chegando ao local marcado para recolher os 11 oficiais da FSB às 2:00AM horário de Moscow.

Prostitutas russas, charutos e bebida à vontade. Era quase uma festa de despedida de solteiro após uma grande operação. Uma festa entre Ucranianos e Russos, sendo muito sincero, alguns até desconfiavam que haviam pessoas da própria Zvezda dentro desta festa. Quando os oficiais começaram a se levantar com as damas de companhia e ir para seus aposentos, notaram que faltava um deles, Rostkov tinha ido embora bem cedo dali, mas tinham certeza de encontra-lo ao check-out.

A neve caia lá fora, enquanto Rostkov, deitado, lembrava-se dos passos que seguiu até o quarto, quando notou alguma coisa na saída do sistema de calefação. Ele notou que o ar não estava tão quente, mas um vapor saía de lá e aquilo não parecia normal. O fato não era o ar estar contaminado com algum tipo de arma química ou biológica, mas, quem faria isso em uma área diplomática, desrespeitando as leis e jogando tudo para o alto.

Uma sirene bem fraca, parecia o som dos lobos, um Uivo.
Rostkov sem pensar duas vezes apenas abriu a janela do quarto e se atirou do 5º andar.


segunda-feira, 23 de julho de 2018

O vazio das estrelas - Ponto chave


É um mundo preto, que no máximo se torna cinza.

É a saudade de um lugar que você nunca esteve.

É o choro sem sentido algum.

É a vontade de passar o dia na cama e não haverá nada que mude a sua vontade.

É aquela dor incessante, como uma mordida na unha onde a carne se mistura com a pele seca, com a lasca.

É o cachorro que late de madrugada, a madrugada toda, toda e toda ela!!!

Em meio a isso tudo a gente levanta da cama e tenta levar o dia, alimentar o corpo, pensar em boas lembranças, trazer de volta aquela esperança.

Mas sabe quando você apenas de lembrar do monstro, ele surge de novo na sua cabeça?

O problema é esse, é a mente tentando dizer que chegou ao limite. É uma forma de quebrar as barreiras do imaginário e por em prática o plano “Shutdown” e você entra em um estado de hipnose.

É um questionamento sem fim sobre o que realmente importa e a resposta nunca sai do zero.

É um vazio impreenchível dentro de um corpo inerte.

É um corpo inerte em meio a um vazio impreenchível.

De alguma forma, alguma coisa trabalha fora dos moldes pressupostos pela sociedade, mas, talvez seja exatamente esse o problema, uma produção toda de pessoas que não se moldam no que a sociedade prega como “normal”. São pessoas com uma sensibilidade extremamente frágil onde o menor deslize colocaria tudo a... ganhar? Perder? Mas estes conceitos são tão incorretos... o que se ganha? O que se perde?

É uma explosão silenciosa dentro daquele vazio.

Não existem cores, não existem sentimentos... o nada está ali.

Do nada surge e do nada se acaba.

O câncer da mente.

Sabemos todos que até mesmo um vilão tem bons motivos para sê-lo.

É necessário encarar os problemas para que eles tenham sentido em existir e não apenas pensar que eles existem para nos fazer mal. Afinal, bom e mau, escuro e claro, céu e inferno, são conceitos criados pelo ser humano para controlar as grandes massas e se você não está incluído em nenhum grupo, você é um marginal.

Este é o grande problema, sentimos ódio, raiva e pena dos marginais.

O ódio é um sentimento de repudio e para as pessoas “normais” é assim que os marginais se sentem em relação a si mesmos.

ESTÃO ERRADOS!! IMBECIS.

Você se acha normal por levar uma vida de merda?

Não há motivo. Não existe explicação. O gatilho é puxado sem aviso prévio e quando você se dá conta...

Quer saber o que eu sinto?

Nada.