segunda-feira, 21 de maio de 2018

De Fyodor a Faber - Lembranças e notoriedades


Faber, as vezes me encanto em saber que está por aí. As vezes eu me olho no espelho e vejo um tanto de você. Lembro dos dias que toda a família te chamava para observar os campos ainda verdes do início do outono e você raramente saia do porão. Enquanto Pyotr ainda ansiava por melhorar as apresentações na corte e toda aquela preparação da Ekaterina para o baile real. Lembra? Claro que não, eu sei. Você sempre esteve parado no tempo para esses valores mundanos. Eu sei, você está hoje onde sempre sonhou. Eu temo que não volte mais, mas, enfim, gostaria que soubesse que estamos todos bem, de certa forma. No oriente médio lançam bombas químicas, gases, como na primeira Guerra.

De fato, receio termos que voltar a utilizar as máscaras da peste, mas, hoje sou apenas eu ainda neste espaço/tempo indefinido entre o firmamento e o que chamamos de limbo. Não reclamo, apenas vago pelas entranhas desta terra sem escrúpulos ou momentos prazerosos. Creio que Walt Whitman tinha receio de compreender toda aquela indiferença em relação a Ben Franklin, mas acho que este tempo não compreende ao seu e nem a sua pequena escala via Sputnik, sei que enxergas a Terra como uma bola multicores onde predomina o azul, mas me diz, tire esta duvida da minha cabeça. Ela é tão bonita quanto parece ser? Digo. Daqui da crosta os seres humanos são tão arrogantes. Parece que eles não entenderam o recado enviado por Deus. Acho até que eles mesmos inventaram essa história de Deus para colocar as pessoas em pequenas jaulas mentais, você me entende? As vezes é mais fácil que as pessoas sigam ordens quando elas temem que o não cumprimento delas traga uma punição eterna. Não sei se me faço claro, mas existem dúvidas que me assolam em relação ao poder das palavras contra o das ações. Peço que meu caríssimo irmão não se sinta ofendido com minhas dúvidas, mas penso que talvez Ekaterina tenha sido mais feliz ao lado de sua esposa Lucrécia ao invés de se entregar ao convento e àqueles padres corruptos que só conseguiam olhar para suas pernas e por mais que fossem castos, sabemos que a oportunidade faz o ladrão e Ekaterina nunca foi muito comportada. Eu confesso, tive medo de que ela colocasse aquele convento abaixo e o transformasse em um cabaré ou coisa parecida.

Faber, meu caro Faber… ou como diria Whitman, “Oh Captain! My Captain.” não deixe de escrever, aquele gato que deixaste aos meus cuidados sente muito sua falta, aliás, ele parece ler suas cartas quando eu as abro, mas parece também as amassar com profundo desprezo depois que compreende que você não voltará mais. Fico receoso que ele fique doente pela sua falta. Eu sempre deixo o rádio ligado nas ondas sonoras da estação especial e ele sempre identifica o seu espirro matinal ou seu ronco durante o sono. Ele move as orelhas de uma forma engraçada, mas apenas as orelhas, é um movimento milimétrico. Por fim, mande um alô as vezes. Estamos eventualmente escutando Tchaikovsky, como você havia pedido para um bom relacionamento entre nós e o felino (eu hoje o chamo de Volga).

Ekaterina mandou uma carta esses dias, está em Dallas com Lucrécia e não tem data de retorno à Rússia. Elas se dão tão bem, espero que elas se casem e tenham muitos filhos. Infelizmente não tenho tanto a dizer sobre elas já que tudo o que sobrou da carta foi a data e o local, o Volga rasgou tudo e ainda rosnou para o carteiro e segundo o mesmo, ele nunca viu um gato rosnar daquele jeito. Pyotr disse a pouco que o Volga miou se desculpando, o coitado pensou que a carta era sua e eles estão montando o quebra-cabeças, mas não creio que terminem antes do ano novo, assim que finalizarem, eu mesmo escreverei sobre como estão as meninas.

Saudações de Moscou, esta cidade continua azul, misteriosa e bela. Pyotr sente sua falta e todos os dias fica buscando a ISS com seu telescópio. Volga não disse nada, eu acho que ele prefere dizer tudo quando vocês se virem novamente.

Com carinho, Fyodor.

“Nas mais sinceras perspectivas, em um tom angustiado pela falta ou pela presença de um ser supremo. Não deixe que o encanto pela vida seja perdido. Não há nada mais belo do que ter o poder de observar os campos verdes de Outono ou até mesmo saborear as frutas da estação. O ser supremo vive dentro de nós, nós somos supremos dentro de um sistema, nós criamos e alimentamos o sistema. Se algo está errado, logo nós estamos fazendo errado. Falo da individualização da culpa, não podemos culpar apenas uma pessoa pela catástrofe que a vida nos apresenta. Assim como não podemos deixar de admirar as coisas belas que a vida nos traz. Como em uma serenata melancólica, por mais depressiva que ela seja, ainda é uma bela peça para se apreciar junto a um bom whisky e a um bom tabaco."

Fyodor M.



quarta-feira, 11 de abril de 2018

BlastFêmea


Antes de começar a seguem algumas notas para facilitar a compreensão:
>A consciência fala em CAIXA ALTA;
>Cuidado;

Ligue o som, comece com um Jazz bem calmo...

Ella Fitzgerald – Summertime.
https://www.youtube.com/watch?v=XivELBdxVRM

Boa leitura.

Tudo começa aqui... 

Então, os olhares se trocaram durante aquela música. Vocês sorriram um para o outro, um chegou, se trombaram e pá! Vocês dançaram a noite inteira e simplesmente se divertiram como não houvesse amanhã. 
- Que incrível.
- Uau! 
Como num sonoro Jazz as coisas fluíam bem e tudo o que você poderia dizer era...
- Uau!

Flores chegaram em sua porta, em seu trabalho ou em seu habitat. - MAS VOCÊ ODEIA FLORES -
Ele ainda no auge de todo um amor a primeira vista, mantinha a posição de enviar flores a todo o momento considerado especial. Você não queria “estragar” a coisa, mas confesse, já estava cheia daquelas rosas, hora brancas, hora azuis, hora vermelhas! - QUE CAFONA - 

Logo você, uma mulher moderna, recebendo flores e sendo alvo de zoação pelos colegas de trabalho, pelos vizinhos, até o dia que encontrou o cachorro que sempre passava por ali, urinando nas flores deixadas no seu tapete. Aí foi o fim! Até o cachorro! Você tinha que contar para ele que não gostava de flores, não desta maneira, que preferia um jardim de rosas ao invés de galhos serrados talvez. - MENTIRA -

Mude a música, fique na Ella, troque para a “Cry me a River”
https://youtu.be/2Gn9A-kdsRo

Quando você efetivamente chega a um consenso entre todos os seus neurônios, texto pronto, e diz que necessita falar com ele urgentemente! Vocês marcam no café mais próximo e simplesmente você chega 20 minutos antes para quebrar o coração dele e dizer que odeia as flores que ele te manda. - LÁ VEM O CARA - entrando pela porta, observando você com os olhos cheios de felicidade, - PARECE UM CACHORRO RECEBENDO OS DONOS EM CASA - sorrindo como alguém que sente saudades e não te vê a anos! Ele traz consigo, um botão de rosa, com pétalas decoradas. - PUTA QUE PARIU! FALA AGORA AQUELE TEXTO! FALA! PIRANHA! - Você não fala. Você sorri igual a uma tonta, pega o botão da mão dele e vocês se beijam ali mesmo. Assumem que sentem saudade um do outro e batem papo até o estabelecimento fechar. Ao chegar em casa, você só consegue olhar o botão - O MALDITO BOTÃO - , colocar num copo com água - ENFIA ELE NA BUNDA AGORA -, sentar no sofá e ficar viajando sobre como é agradável estar ao lado dele.

Troca de novo!
As Time goes By - Frank Sinatra
https://youtu.be/MPLFMUmonK8


Sua campainha toca, você logo pensa: “Mais flores”, ele está na porta, tomou até chuva para chegar em sua casa. Vocês se olham, você o convida, ele entra. Você oferece uma toalha e uma camiseta de um dos seus irmãos mais ou menos do tamanho dele. Vocês passam a noite na sala, deitados juntos, mãos nas mãos, pés com pés, corpos entrelaçados e toda aquela fofura. Ao amanhecer, você encontra um bilhete com palavras carinhosas e flores desenhadas. - CARA! É UM SERIAL KILLER? DONO DE FLORICULTURA? UM LUNÁTICO? DE ONDE VEM TANTA FLOR!? - Você reluta, assume e enfim liga para ele dizendo amar o bilhete. Ele diz que é de coração e que devolverá a roupa emprestada o mais rápido possível. Você não está com pressa, mas entende as segundas intensões.

Strangers in the Night, do Sinatra
https://youtu.be/hlSbSKNk9f0

Vocês passeiam pelas ruas. Bares cheios, estabelecimentos comerciais, restaurantes e enfim param no mesmo café. Pedem a mesma coisa de sempre e a rotina é estabelecida. Vocês entendem o esfriamento da relação devido a rotina e decidem se separar. Cada um para o seu lado. - HEIN? SÉRIO QUE VOCÊ NÃO IMAGINAVA ISSO? TOLO! - Sua casa agora cheia de galhos secos de flores, tudo para o lixo. Tudo está mais frio do que parece, o inverno chega, as árvores amareladas começam a perder suas folhas assim como o seu cabelo começa a perder o brilho. Vocês se trombaram no trem indo para a área 2 da cidade. Foi estranho, foi como se não se conhecessem mais.

Miles Davis - Freddie Freeloader
https://youtu.be/RPfFhfSuUZ4


A vida passou e vocês se encontraram novamente naquela baladinha. Sorriem um para o outro. Você olhou para ele, em palavras doces: “Sem flores desta vez?” Ele estava feliz demais para entender, mas acenou com a cabeça, era um sim. - A TROUXONA ACREDITOU AINDA - Se casaram e nem buquê rolou. - QUE HOMEM -




sexta-feira, 16 de março de 2018

Contos Maconheiros - 01

Um casal de velhinhos sentados na varanda, a brisa batia leve, cada qual em sua cadeira, estavam quietos. Ele com um leve sintoma de Parkinson portanto era ela quem dichavava e bolava o baseado.

Cigarro pronto, Tânia olhou para David com um semblante alegre, ela queria por fogo logo naquilo e David sempre calmo, pediu para que ela esperasse um pouco, ele ia ao banheiro.

Passados uns 20 minutos, David voltou e Tânia estava ansiosa questionando:

- Por que demorou tanto?
- Acha que é fácil limpar a bunda com as mãos tremendo?
- Grosso, era só ter dado um peguinha, estaria tranquilo.
- Eu sei, mas você fumaria tudo antes de eu voltar.
- Eu seria incapaz disso.
- Sei, cachorrona. Acende ai essa birosca.
- Falou a minha língua, seu bocó.

Tânia acendeu, como de costume, quem bola sempre acende. 
Deu 1, deu 2… olhou para David, que já aguardava sua vez. Esticou a mão com o baseado, tentando passar, mas as mãos tremulas dele não permitiam que ele de fato agarrasse. Ela tragou mais uma vez, dizendo que ia apagar enquanto ele apenas ria da situação. 

Ela levantou, chegou bem perto e soprou a fumaça na cara dele. Isso reduziu um pouco a tremedeira.

- Okay, já se divertiu?
- Já sim. Vai querer ainda?
- Claro. Hehe
- Você é o velho mais lindo que eu já vi!
- Para com isso, vou começar a tremer de novo. Vem cá, senta aqui.

Ela sentava devagarzinho no colo de David. Enquanto ele tragava a primeira vez e sentia todo seu corpo relaxar. A brisa batia um pouco mais forte e os dois começaram a rir.

- Do que você tá rindo, bocó.
- Eu não sei.
- Olha, parou de tremer.
- Sim. Vem cá, me abraça.
- Eu não consigo parar de rir. Que chá é esse?
- Peguei com o Valdir.
- Aquele do buteco?
- Sim.
- Vou dar um beijo nele!
- Eu também!
- To com fome…
- Deixa eu levanter, vou fazer algo pra gente.
- Tá, vou acabar essa pontinha.
- Que dúvida, sua saco sem fundo.

Tânia se recostou na poltrona da varanda e pegou no sono, passados mais de 40 minutos, abriu os olhos procurando por David, que desde então não aparecera. Levantou, indo até a cozinha, encontrando-o no caminho entre a sala e a cozinha, parado e olhando para o nada.

- O que você tá fazendo aí? – Perplexa –
- Eu não sei, cheguei aqui e esqueci o que vim fazer.
- Você veio fazer o jantar! Seu bocó! – Gargalhando –
- Ah é?
- É! – beijando David com carinho –
- Bom, podemos pedir uma pizza então.
- Boa ideia.


terça-feira, 13 de março de 2018

Quem não ama, adoece!


Quando eu te vi, me apaixonei, confesso, foi à primeira vista. Mesmo que naquele dia nós dois realmente tivéssemos entrado em certo atrito. Não te achei chata, mas se eu pudesse me desculpar pelas palavras que usei, eu me desculparia.

Era carnaval, um dia atípico na minha vida e de muitos outros seres humanos deste país que nós chamamos de Brasil. Quando soube que você ia, eu simplesmente não cabia em mim de tanta felicidade, foi estranho lidar com isso, mas, eu sempre fui aquele que observa e eu não podia saltar em cima de você e dizer: “olá, to afim de você, rola?”, eu fiz como sempre faço, apenas observei, talvez seja por isso que eu sou aquele cara “exceção a regra”. Aquele que não conseguia brincar de “quem pega mais” na balada, ou, aquele que contava vantagem com os amigos sobre quantas garotas ficou, aliás, minhas conversas nunca foram sobre mulheres e como elas são lindas e tal. Minhas conversas sempre foram do tipo, “o que vai além desse manto negro cheio de estrelas a noite?” ou, “como construir um foguete em casa com materiais domésticos” ou então, “como plantar abacaxi e rosas no mesmo vaso” ... enfim, te ver aquele dia com outro cara seria torturante para mim, de verdade, eu pagaria caro desta vez por ser apenas o observador.

Eu odeio admitir, mas o destino é mesmo uma caixinha de surpresas, e quando teu irmão, que deixo claro que também é meu irmão, chegou até mim me dizendo: “Ela está afim de você, faça alguma coisa com esta informação, eu vou comprar cerveja.” (não exatamente com essas palavras, mas, foi o que eu entendi). E incrivelmente, você parecia estar mais envergonhada que eu naquele momento e achei que o primeiro passo foi dado por você, o próximo era comigo, e foi... nos beijamos ali mesmo, naquela esquina, sem medo de quem olhava e sem problemas com o exterior, estávamos ali, trilhando nosso caminho rumo ao hoje, nesta madrugada que não durmo sem antes escrever para você. Neste momento toca na TV “Nothing Else Matters” do Metallica.

Sempre que ouço músicas, independente qual seja, imagino nós dois escutando juntos, a sua sensibilidade me atrai, nossa energia juntos é uma coisa que me impressiona, você é aquele feixe de luz que eu nunca sei de onde vem, mas de qualquer forma, me conforta por iluminar meu quarto durante a noite. Ainda mais pois apesar de dormir no breu, eu tenho um medo infantil do escuro que as vezes eu domo e as vezes não. Por isso eu sempre durmo tarde ou quando amanhece, pois, ou o sono me derruba ou a luz me acalma e dormir com seu abraço e com sua perna por cima das minhas, com as mãos entrelaçadas e o seu calor invadindo meu corpo são as únicas formas que eu me sinto seguro para fechar os olhos e ter a plena certeza de que está tudo bem.

Deve ser o vício naquela química toda que a gente se proporciona. Como é? Serotonina, Oxitocina, Feniletilamina, Norepinefrina e Dopamina. Você me faz falta da hora que sobe naquele ônibus até a hora que chega de volta pra cá. Em resumo, são duas pessoas completas que sentem falta da companhia uma da outra. A gente se gruda, porque gosta de ficar grudado, isso é meu e seu, questão de pele, cheiro, gosto. Você me encanta e a gente se dá bem junto. Dentro desse fogo todo, eu achei um lugar que aquece sem queimar.

Adoro a tua companhia, você me traz paz.

Se eu pudesse te dar uma galáxia, te daria Andrômeda, ela que estará tatuada em mim em pouco tempo.

Volta logo baby.




quarta-feira, 7 de março de 2018

Volcano


Caminhando sobre os desertos de uma mente já disposta a se desligar. Tudo aquilo era tão inóspito quanto Fukushima após o desastre nuclear. Mas como mencionar Fukushima sem adentrar nas memórias, quando o mundo era vazio. Acreditava-se tanto que cristo era o salvador que no final das contas o mataram. Enquanto isso, os seres humanos se projetam para fora do planeta buscando novos locais e novas colheitas. Num piscar de olhos estamos caminhando em campos verdes, carvalhos refletidos no lago.

De certa forma fechar os olhos novamente nos devolve ao deserto intelectual. Tudo se derrete como em uma composição de cera exposta ao fogo. As cordas e correntes ainda nos prendem neste espaço vazio e cheio de oxigênio, mas, até onde, até quando?

Enquanto piso nos lagos incandescentes sem sentir meus pés. Vulcões me reduzem ao simples humano, mas o pleno voo me eleva ao ser supremo, conhecer o chão que pisa por vezes não se vale de nada se a vontade de o pisar não existe. Ascendia ao ponto mais alto no céu e em um mergulho no poço de lava fazia com que a experiencia fosse cada vez mais complexa. Os sistemas falhavam enquanto meus olhos queimaram, todo o corpo em chamas assim como o que me envolvia. Não havia mais sentidos, fé, força ou conhecimento de terreno, ali havia apenas o ar que se soltava de meus pulmões elevando as bolhas de pedra a superfície.

No vale das chamas no qual eu havia saltado, tudo estava intacto. Quando em um grito de raiva, atingi o ápice da plenitude. Em posição de lótus é como se a massa quente me colocasse para cima outra vez. Um conjunto de pedra, metal e carne. Em estado de transe meu corpo não mais ali, petrificado. Como rocha minha mente levitava sob as águas vermelhas de Olympus Mons. 

Ao longe um violino, acusava mar adentro daquele monge chinês que tocava com certa calma seu instrumento. Veias de ouro, nervos de seda, pele de pano, olhos de diamante e vestes de pedra. A cada instante a música se aproximava cada vez mais de meus ouvidos ao mesmo tempo que o monge parecia mais longe. Meu estado de levitação e transe alcançava o Nirvana ao ponto que minha carne recuperava os sentidos e meu corpo se reconstruía.

O Violino, o vulcão, o monge feito pano e pedra, no próprio dilema existencial de não saber se era um sonho meu ao sonhar com o monge ou um sonho do monge ao sonhar com o próprio com alguém renascendo das chamas do vulcão marciano. A voz da soprano fazia com que a crosta de pedra que me envolvia trincasse, trazendo-me de volta ao plano pelo qual eu iniciara esta jornada. 

Por um instante que o violino surgiu em minhas mãos, ao mesmo tempo em que desta vez, minha pele era pano, minhas veias, ouro e meus olhos, diamante.

O violinista era eu, a soprano era a minha música e a viagem, bem, esta era a divindade.



sábado, 2 de dezembro de 2017

Meu caro Fyodor - Prelúdio

Te chamo de Fyodor, mas, meu amigo, como é mesmo aquela velha história de que nunca mudaríamos?

Como é mesmo aquela velha frase, “os dois que se tornam um”, ou, quem sabe, três?

O mundo deu as voltas que ele sempre dá. Assumimos nossos atos e lados, corremos em direção contrária por várias vezes e cá estamos, frente a frente. O espaço entre os nossos corações sempre foi mínimo, e eu não falo, obviamente, de carne, esta não é uma confissão ou palavras de amor. Está é uma carta em resposta aos teus atos, meu caro Fyodor.

Por muito tempo adquiri certas artimanhas vindas da nobre terra, o tal planeta azul que tanto falam. Cá do espaço, vejo o Sol nascer por detrás de todas as mentiras que ouvi e ainda vejo o quanto os seres humanos são tão mais humanos. Sua crença não os faz melhores, as caravelas que vocês construíram se tornaram navios de guerra (não que as caravelas não os fossem), hoje eu vejo que dá mesma forma que construíram pontes, vocês destruíram as relações e cada dia vivido, tenha em mente, é um dia a menos em seus anos. A chance de fazer com que as pessoas sejam melhores se vai por dinheiro.

Já percebeu que, meu caro Fyodor, vos escrevo não para congratula-lo, mas para fazê-lo pensar o quanto ainda resta para que no fim de tudo, antes de se tornar pó cósmico ou qualquer que seja a sua crença, você escolha para que veio e por o que vive. Não, de maneira alguma gostaria de ver-te mal, nem é esta a minha intenção. Minha intenção nesta carta é simplesmente te fazer pensar:
- O que será de mim ou de você quando o mundo acabar?

Não penso em humanidade, estou farto disso, estou farto de pensar de uma forma ampla. A mudança começa dentro de nós, nós somos os malfeitores, nós permitimos que abusem, que façam o que fazem e simplesmente pensamos, por enquanto preciso disso, mas, até quando precisaremos?
Não percebe que quanto mais colocamos tudo o que temos “por enquanto”, no final não teremos nada?

Mas, claro, fica a pergunta meu caro Fyodor:
- O que é o tudo e o que é o nada? É material? Físico mesmo, falando daquela coisa de pele? Aquele impulso animal que nos tira a racionalidade e nos transforma em lobos?

Enfim, meu caro Fyodor. Pelo o que você luta? Pelos tais comandantes comandados das esferas municipais, estaduais e federais das divisas terráqueas?

Digo, no meu ponto de vista cá da estação, inclusive pelo quarto no qual me cedeu junto a POCKOCMOC, cá do meu lado, o mundo não há divisas, é um só, como no início dos tempos. Boa parte dele é verde, mas a grande parte é azul e inexplorada, ou inexplorável.

Eu nunca vou compreender os humanos que hoje correm para observar além da Via-Láctea, mas tratam ainda os Atlantis como seres mitológicos. É inexplicável as formas como ainda dizem desbravar os mares se nunca foram além das ondas. Ainda penso nas n formas de combate a morticínios e aos fatídicos homens que se combatem por poder, será mesmo que nenhum deles compreende que as guerras apenas trarão mais guerras?

Por fim meu caro Fyodor, meu pai sonhava com o momento em que me visse chegar ao fim do programa espacial e eu voltasse para casa, eu também anseio por este momento, mas eu sei que não voltarei a tempo de ver o sorriso nos dentes dele, não estou sendo dramático ou coisa parecida, a vida passa para todos nós e ele era a única coisa que me fazia humano, era a única coisa que me faria voltar. Hoje, não há mais porquê. A tristeza tomou conta de mim por um momento, e ela me trouxe a reflexão dos motivos que nos levam a nos distanciar de nossa origem.

Desculpe se fui rude por algum momento, gostaria apenas de externar minhas sintonias, cá do lado russo da estação espacial. Sei que entenderá.

Abraços do seu amigo Faber e mande notícias de Alyosha.

“Entre reis e reinados, presidentes e mandatos. A humanidade ainda segue o fluxo padrão de sobrevivência em meio as regras enviadas pelo divino. Divindades estas criadas pela mídia e pela boa e velha fala. Não é necessário saber falar, mas entender o que os outros gostam de ouvir, entramos no desespero que assola a humanidade em busca do metal. Não sei se por idade ou se por, de fato, poder. É de fato curioso o momento em que o crescimento custa vidas e dias de vida. 
No espaço não existe deus, existe a paz.”


Faber Krystie McDonnadan


sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Carta de VoM a Faber, agradecimentos a Fyodor - Parte 1

“Após pensar por um instante sobre a questão astrológica, cheguei em um ponto abstrato demais para deixa-lo em minha mente apenas. Levando em consideração que as constelações do zodíaco são conjuntos de estrelas que formam “desenhos” no céu e cada uma delas foi nomeada de acordo com a imagem que formava. Qual seria a relação que criamos entre a questão astro/física ao mencionarmos a ciência da astrologia. 

No momento em que mencionamos Vênus em Câncer, ou, quem sabe, Sol em Capricórnio, Júpiter em Virgem (só coisa boa). Sabemos que tudo é regido pelo Sol, no centro do universo (o nosso universo) e quando um planeta está entre o sol e a constelação, diz-se então que sofremos diretamente sua influência desta energia que se desprende de alguma forma ao momento em que o Sol se alinha com um planeta e então com uma constelação.

Já parou para pensar na relativização que temos ao compreender que o alinhamento é crucial, assim como o ponto de visão, é claro, que cria este segmento entre os astros já que as constelações estão paradas no mesmo ponto do céu enquanto os planetas giram em suas órbitas.

Parece óbvio porque é óbvio. Faber, eu peço, não caçoe de mim.

Mas pense:
- E se para que Vênus sofresse a influência de Câncer, o planeta Terra deveria estar em um ponto x em relação a constelação de Câncer e Vênus em um ponto y em relação a Terra?

Diz alguma coisa homem!

Abraços apertados do seu querido amigo, 
VoM”


Assim, desta forma me coloquei a pensar quando VoM em um de seus devaneios me escreveu esta carta, cá em meu quarto na estação espacial, cedido amigavelmente pelo meu incrível amigo Fyodor Pavlovich, me pus a pensar:

- Até onde a luz do Sol vai?
- Até onde o universo nos concede o infinito limite?
- Quantas mais estrelas estariam por trás das constelações que vemos hoje?
- Qual a influência das ondas gravitacionais nisso tudo?
- Até quanto mais eu poderia ir além neste estudo?
- O quão notável seria o nosso tal Fyodor em meio a tantas perguntas que me surgem na cabeça ao olhar a Terra tão de longe no meio do vazio de estrelas que vejo cá da estação?

Como se a tese na qual acreditamos até hoje de que tudo funciona como um relógio regido pelo Sol fosse besteira.

Já que vivemos na terra, não deveríamos encontrar um ponto de visão em relação a terra, de certa forma, relativizando ainda mais, nós estamos parados enquanto todo o universo gira em torno de nós (não me leve a mal), cá da estação, no meu ponto de vista, a Terra gira em torno de mim e as constelações continuam paradas. Capisci?

Sei que se criam consensos, concílios e opiniões populares, mas além do estudo, além dos 4000 anos de estudo, como se por um instante, um acaso, um leve deslize, ninguém tivesse arriscado pensar nisso... E se estivéssemos errados todo esse tempo?

“Não entreis em conflito com teus iguais (e nem desiguais), procurais a compreensão de ambos os lados sem favorecer nenhum deles e buscais estritamente o saber através da própria pesquisa. Os homens vos fazem acreditar em tudo o que lhes é comercial para que vos compreis suas ideias e ideais. Sejais únicos ao cumprir teus próprios ciclos de estudo sobre as questões que lhes assolais a mente sem nenhuma e qualquer influência, mesmo que errado estejas o caminho percorrido é o que realmente importará.”
Faber Krystie McDonnadan


sexta-feira, 10 de novembro de 2017